Isabel de Fátima Alvim Braga

O povo americano elegeu um político que falava contra o povo americano. A Europa assistiu à derrocada de seus alicerces ao permitir a entrada de indivíduos ligados ao terrorismo. Poucos entendem por que isso ocorreu. Não se trata de um ovo de salamandra — daquela ideia de que o mal nasce de fora, pronto, e invade o corpo social. Trata-se da culpa que temos como sociedade ao ver quem está em situação difícil e recusar a hipótese de que essa pessoa possa estar em situação difícil por ter prejudicado os outros e estar sofrendo consequencias de escolhas ruins.
A sociedade foi feita para dar oportunidade a quem sabe aproveitar. Ela não foi feita para suspender as consequências em nome da piedade. A mesma sociedade devastada emocionalmente pelo 11 de setembro sentiu culpa pelo que sentiu. Em vez de buscar o meio-termo — tolerar o diferente, mas permitir que ele sofra as consequências quando erra —, escolheu tratar as minorias como inimputáveis. Quando o grupo é pequeno, a responsabilidade individual desaparece. O erro deixa de ser erro e passa a ser sintoma. A exploração deixa de ser exploração e passa a ser resposta legítima à opressão. Depois, quando as consequências chegam, a sociedade se surpreende.
Do ponto de vista do cérebro, isso não é apenas uma escolha ideológica. É o resultado de circuitos que competem entre si. O cérebro humano tem sistemas antigos de ameaça (centrados na amígdala) que, depois de um trauma coletivo como o 11 de setembro, ficam mais sensíveis a sinais de perigo. Ao mesmo tempo, tem sistemas de cuidado e empatia (envolvendo o córtex pré-frontal medial, a ínsula e redes de teoria da mente) que se ativam fortemente quando vemos alguém como vulnerável ou “vítima”.
Quando esses sistemas de cuidado dominam, o cérebro tende a reduzir a atribuição de agência e responsabilidade à pessoa vista como prejudicada. O erro dela passa a ser interpretado mais como consequência do ambiente do que como escolha. Isso é útil para proteger crianças ou pessoas realmente incapazes, mas se torna problemático quando é aplicado de forma ampla a grupos inteiros. A culpa social — a sensação de que “nós” fizemos algo errado ou que “nós” devemos compensar — amplifica ainda mais esse circuito de cuidado e inibe o circuito de justiça e consequência. O resultado prático é que a sociedade perde o meio-termo: tolera o diferente, mas deixa de permitir que ele sofra as consequências quando erra.
É nesse ponto que a diferença entre o príncipe Míchkin e Grace se torna útil. Em O Idiota (1869), de Fiódor Dostoiévski, Míchkin chega a São Petersburgo oferecendo confiança e bondade sem cálculo. Ele não cobra reconhecimento. Não se vê como superior de forma que exija retorno. As pessoas ao redor — Nastássia Filíppovna, Rogójin, a sociedade — o exploram, o usam e o destroem. Míchkin termina destruído. Ele não destrói os outros. Sua generosidade não é um crédito que o mundo deve honrar; é um modo de estar. Quando é explorado, o custo permanece localizado nele. A estrutura continua intacta. É a Europa atualmente.
Em “O narcisismo que quase ninguem vê”, ao falar de relacionamentos, tratamos o vitimista como invejoso disfarçado. Ele não quer necessariamente o que o outro tem. Ele quer que o outro não possa existir livremente — sem carregar a dívida, sem se sentir culpado, sem precisar cuidar dele: é sobre tirar do outro. E esse mecanismo extrapolou os relacionamentos amorosos e inseriu invejosos nas sociedades. A performance de fragilidade sequestra a bondade e a empatia alheias e as transforma em recurso para sugar os demais. Em políticas sociais, isso se clarifica em imigrantes que recebem da segurança social sem nunca pensar em trabalho; que tentam não só manter sua cultura – o que é saudável – mas sim a impor ao pais que a recebeu. Não tenho nada contra imigrantes e já fui uma numa pequena cidade. E nessa mesma cidade me senti desconfortável quando um grupo de imigrantes que não era brasileiro resolveu cismar comigo na saída de um mercado. Mas informa-se que nada pode ser feito, pois são apenas selvagens que nunca viram uma mulher com pouca roupa (Uma calça e uma bata. Pouca roupa.). Quando um português revidou esse comportamento selvagem por uma agressão a um menor, juntaram neles. Aparentemente, os selvagens andavam em bando.
Grace, em Dogville, opera de modo interessante. Sua chegada também parece oferta sem cálculo. Mas a oferta está condicionada a uma expectativa não declarada de reconhecimento e reciprocidade. Quando a cidade recusa o reconhecimento e transforma a hospitalidade em exploração sistemática, a expectativa se torna explícita e muda de moeda. Grace não aceita o preço sozinha. Ela convoca o poder externo e faz a cidade pagar na mesma escala da violência que sofreu. A pureza inicial se converte em direito de cobrança. Quando o direito não é honrado, a pureza se torna força destrutiva. Sugiro que adivinhem a qual localidade me refiro.
Dostoiévski mostra o custo da bondade sem defesa: o inocente é consumido e a estrutura permanece. Von Trier mostra o custo da bondade que se acredita superior e, portanto, credora. Míchkin não exige que o mundo corresponda à sua generosidade. Grace exige. Quando o mundo não corresponde, Grace cobra em outra moeda. Míchkin paga o preço sozinho. Grace faz a cidade pagar.
Os dois finais são desconfortáveis por razões diferentes. Um destrói o bondoso. O outro destrói quem explorou o bondoso. Em nenhum dos dois há redenção fácil da estrutura. A sociedade que trata o explorado como inimputável e o explorador como credor permanente acaba, cedo ou tarde, pagando em uma das duas moedas: ou a extinção do generoso, ou a simetria da violência.
O meio-termo — tolerar o diferente e permitir que ele sofra as consequências quando erra — é exatamente o que as duas narrativas recusam, e o que a culpa contemporânea também recusa. Do ponto de vista neurológico, recuperar esse meio-termo exige que os circuitos de cuidado e os circuitos de consequência voltem a conversar, em vez de um silenciar o outro.

O que acontece em Dogville
Dogville é um filme dinamarquês de 2003 dirigido por Lars von Trier. A história se passa numa cidade pequena e isolada no interior dos Estados Unidos, nos anos 1930. O cenário é propositalmente teatral: o chão parece um palco, com linhas brancas desenhadas indicando as casas, as ruas e as paredes. Não há paredes reais. Tudo é aberto. O espectador vê o que acontece em todas as casas ao mesmo tempo. Essa escolha não é apenas estética. Ela força o público a observar a comunidade inteira sem esconderijos.
Uma mulher chamada Grace chega fugindo de algo. Ela pede abrigo aos habitantes de Dogville. Eles hesitam, mas aceitam. Em troca, ela precisa trabalhar para todos. No começo as tarefas são simples. Aos poucos as exigências aumentam. O trabalho vira exploração. A exploração vira humilhação sistemática. Grace aceita. Ela acredita que a cidade pode mudar se ela for paciente, útil e bondosa o suficiente. Ela se oferece cada vez mais, mesmo quando a situação se torna degradante. A comunidade, por sua vez, encontra novas formas de extrair algo dela. O que começa como ajuda mútua se transforma em uma relação de poder desigual, sustentada pela ideia de que Grace “deve” algo à cidade por ter sido acolhida.
No final, o pai de Grace chega. Ele é poderoso. Talvez mafioso. Grace, depois de tudo o que passou, autoriza a destruição completa da cidade. Os habitantes são mortos. Dogville acaba.
Quem nunca viu o filme precisa guardar apenas isso: uma mulher que se apresenta como bondosa é explorada por uma comunidade e, no fim, destrói essa comunidade. O filme não oferece consolo fácil. Não apresenta Grace como vítima pura nem a cidade como vilã absoluta. Ele mostra o que acontece quando a bondade é usada como moeda de troca, quando a comunidade transforma o acolhimento em dívida, e quando a pessoa que se recusou a reagir durante muito tempo decide, no fim, reagir de forma total. O final não redime ninguém. O espectador sai com a sensação que os habitantes mereciam o final depois do que fizeram com ela. E encerra o ciclo.
Mas a superioridade moral – muitas vezes real – não pode ser a desculpa para que os narcisistas que se colocam na posição de vítimas não sofram as consequências. Essa éa grande armadilha. O fato de que ela se vinga não torna a violênncia que sofreu certa e nem os algozes em vítimas das próprias escolhas.
Como o cérebro sustenta a superioridade e o coitadismo
O cérebro humano trata a superioridade moral como recompensa. Quando alguém se percebe como “melhor”, “mais justo” ou “mais bondoso” que os outros, regiões ligadas ao sistema de recompensa — especialmente o núcleo accumbens — são ativadas. A pessoa sente um prazer real, físico, em se ver acima. Não é metáfora. É circuito neural. O cérebro registra essa posição como um ganho e tende a repetir o comportamento que a produz.
Ao mesmo tempo, áreas envolvidas na empatia real diminuem a atividade. O outro deixa de ser visto como igual e passa a ser visto como alguém que “merece” o que recebe ou que não está à altura. A empatia cognitiva (entender o que o outro sente) pode até funcionar, mas a empatia afetiva (sentir junto) fica reduzida. O filtro da superioridade protege o ego. Ele permite que a pessoa continue se vendo como boa sem precisar carregar o custo emocional do que está acontecendo com o outro.
Isso permite a submissão ao narcisismo do coitadismo. O coitadismo é a narrativa permanente de vítima. Quem a usa ativa os mesmos circuitos de recompensa quando recebe atenção, cuidado ou isenção de responsabilidade. O cérebro registra isso como ganho. A culpa diminui. A expectativa de que os outros devem ceder aumenta. Quanto mais a narrativa é reforçada, mais o cérebro espera que o cuidado continue.
Quem se submete a essa narrativa também ganha algo: evita conflito imediato e se sente “bom” por tolerar. Os dois se alimentam. A superioridade precisa de um coitado para se sentir superior. O coitadismo precisa de alguém que aceite a posição de superior para continuar recebendo o cuidado e a atenção. O cérebro dos dois lados reforça o ciclo porque ambos recebem recompensa imediata. A empatia que exigiria ver o outro como igual e calcular o custo real fica desligada. O sistema prioriza o alívio e o prazer de curto prazo.
Grace permanece em Dogville enquanto se vê como superior. Quando a cidade deixa de reconhecer essa superioridade, ela destrói a cidade. O cérebro dela nunca saiu do modo “eu estou acima”. Só mudou a forma de cobrar. Isso não é julgamento moral. É descrição de como o sistema de recompensa humano funciona quando a autoimagem de superioridade está em jogo. O mesmo circuito que recompensa a sensação de estar acima também pune a ameaça a essa posição. Quando a ameaça se torna permanente, o comportamento muda — mas o objetivo interno permanece o mesmo.
O Diálogo sobre a Arrogância do Perdão
O Pai: O problema é que você tem preconceito, Grace. Você tem a convicção profunda de que ninguém consegue alcançar os altos padrões morais que você mesma possui. Então você os absolve. Você os absolve com desculpas que nunca usaria para justificar as suas próprias ações.
Grace: Por que eu não deveria ser misericordiosa? Por que não?
O Pai: Não, Grace. Você deveria ser misericordiosa quando há espaço para a misericórdia. Mas você mantém o seu direito de julgar, o que é um direito seu, mas você os poupa da punição. Você os poupa porque diz: “Ah, bem, eles são apenas humanos, não sabem o que fazem” ou “As circunstâncias os forçaram a isso”.
Grace: Mas eles são apenas humanos…
O Pai: Não, não, não. Você está errada. As pessoas em Dogville fazem o melhor que podem nas circunstâncias em que vivem?
Grace: Sim, eu acho que sim.
O Pai: Mas o melhor deles é bom o suficiente? Você está dizendo que eles não podem ser responsabilizados pelas suas próprias ações porque são apenas animais? É isso que você pensa? É isso que você chama de misericórdia?
Grace: Eu…
O Pai: Não. Eu chamo isso de condescendência. Eu chamo isso de arrogância.
Grace:(Chocada) Arrogância? Eu sou arrogante?
O Pai: Sim, você é extremamente arrogante. Você sente que nunca, jamais, cometeria os erros terríveis que eles cometem.
Grace: Eu apenas tento…
O Pai: Você é arrogante porque não julga os outros pelo mesmo critério moral rigoroso que aplica a si mesma. Você os trata como se fossem crianças ou idiotas, incapazes de discernir o certo do errado. E ao fazer isso, você os desumaniza. Você os priva da dignidade de serem responsabilizados por suas próprias escolhas. E essa, minha querida filha, é a pior forma de arrogância que existe.
O Idiota de Dostoiévski
Em O Idiota (1869), de Fiódor Dostoiévski, o príncipe Lev Nikoláievitch Míchkin chega a São Petersburgo depois de anos em um sanatório na Suíça, onde foi tratado de epilepsia. Ele é apresentado como alguém de inteligência limitada e de uma inocência quase absoluta. Não calcula, não manipula, não exige reconhecimento.
Oferece confiança e bondade de forma irrestrita, sem se colocar como superior e sem esperar retorno. As pessoas ao seu redor — Nastássia Filíppovna, Rogójin, a família Iepantchin, a sociedade petersburguesa — o exploram, o usam como instrumento de seus desejos, ciúmes e jogos de poder, e acabam por destruí-lo. Míchkin termina destruído. Ele não destrói os outros. O romance registra o preço da inocência radical: ela não sobrevive ao contato prolongado com o cálculo, o desejo e o ressentimento. A sociedade simplesmente continua, agora sem a presença incômoda do inocente.
A diferença entre Míchkin e Grace (de Dogville, de Lars von Trier) não está na bondade aparente. Está na expectativa. Míchkin não exige que o mundo corresponda à sua generosidade. Sua oferta não é um crédito que o mundo deve honrar; é um modo de estar. Ele não possui um “fora” a partir do qual possa cobrar. Quando é explorado e destruído, o custo permanece localizado nele. Grace, por outro lado, chega à cidade de Dogville também como oferta sem cálculo aparente — trabalho, presença, aceitação da condição de “presente”.
Mas a estrutura narrativa revela que essa oferta está condicionada a uma expectativa não declarada de reconhecimento e reciprocidade. Quando a cidade recusa o reconhecimento e transforma a hospitalidade em exploração sistemática, a expectativa se torna explícita e muda de moeda. Grace não aceita o preço sozinha. Ela convoca o poder externo e faz a cidade pagar na mesma escala da violência que sofreu. Veremos isso em breve no Brasil.
Dostoiévski mostra o custo da bondade sem defesa: o inocente é consumido e a estrutura permanece intacta. Von Trier mostra o custo da bondade que se acredita, em algum nível, superior e portanto credora. Grace não é simplesmente “boa”; ela é boa e portadora de um juízo moral que, uma vez frustrado, autoriza a vingança. A superioridade não está apenas na pureza inicial, mas na convicção de que essa pureza gera um direito. Quando o direito não é honrado, a pureza se converte em força destrutiva. Míchkin não tem essa conversão disponível; Grace tem.
Os dois finais são desconfortáveis por razões distintas. Em Dostoiévski, o desconforto é a permanência da injustiça: o mundo não é obrigado a responder à generosidade e, na ausência de resposta, o generoso desaparece. Em von Trier, o desconforto é a simetria da violência: a cidade é punida, mas a punição não redime a estrutura; apenas inverte quem detém o poder de destruir. Em nenhum dos dois casos a estrutura social é transformada. Em um, ela engole o inocente. No outro, ela é aniquilada por quem um dia se apresentou como inocente. A redenção fácil está ausente nos dois.
Míchkin é frequentemente lido como figura cristológica precisamente porque sua oferta não exige retorno e porque sua destruição não gera vingança. Grace se aproxima de uma figura messiânica invertida: chega como visitante indefesa, é explorada pela comunidade e, no fim, retorna com poder para julgar e destruir. A diferença não está apenas na expectativa individual, mas no tipo de relação com o poder. Míchkin não possui poder externo a invocar. Grace possui. Isso não a torna “menos bondosa” no início; torna sua bondade dependente de uma reserva de força que só se revela quando a expectativa é frustrada.
Os dois textos não descrevem a mesma operação moral. Um descreve a vulnerabilidade absoluta da generosidade sem cálculo e o silêncio do mundo diante dela. O outro descreve a conversão da generosidade frustrada em direito de cobrança e a consequente simetria da destruição. Ambos recusam a fantasia de que a bondade, por si só, reordene a estrutura. Um o faz pela extinção do bondoso; o outro, pela extinção daqueles que o exploraram.
Conclusão
Dogville e O Idiota mostram o mesmo encontro: a bondade absoluta diante de uma estrutura que não a merece. A diferença está no que a bondade faz quando é traída. Uma se destrói. A outra destrói. O cérebro humano facilita os dois caminhos porque ambos podem gerar recompensa no sistema neural. A superioridade moral e o coitadismo são formas eficientes de obter status ou proteção sem precisar ver o outro como igual.
O final de Dogville é desconfortável porque recusa o consolo. Não há aprendizado coletivo. Não há cidade que se arrepende e muda. Há apenas o saldo de uma conta que foi cobrada. Para o leigo, a lição prática é simples: bondade que exige reconhecimento silencioso tende a gerar ressentimento. Bondade que não cobra pode ser destruída. Nenhuma das duas é automaticamente virtuosa. O cérebro humano não distingue tão bem quanto gostaríamos entre as duas.
Quem nunca viu Dogville pode assistir sabendo disso. Quem nunca leu O Idiota pode começar por aí. Os dois textos perguntam a mesma coisa com finais diferentes: o que a bondade faz quando descobre que não será retribuída?
Em breve, todos verão.

Observação final: Esse texto não é uma incitação a nenhum tipo de violência. As imagens são meramente ilustrativas e feitas por IA.
