Por que a sociedade contemporânea parece cada vez mais fascinada pelos algozes — e menos atenta às vítimas? Por Silver D’Madriaga Marraz Nos últimos anos, algo inquietante se instalou no imaginário coletivo: criminosos — reais, fictícios ou híbridos — passaram a ocupar o centro das narrativas culturais. Antes símbolos de rupturas éticas profundas, eles agora surgem envoltos em camadas dramáticas, trilhas sonoras envolventes, atuações brilhantes e discursos que despertam curiosidade, excitação e, perigosamente, admiração. O algoz virou protagonista; a violência, espetáculo; e o crime, produto consumível. Não se trata de negar a complexidade humana nem de reduzir a arte ao…
Autor: Silver Dan Wúrà Marraz
Quando o corpo desaba, é porque a alma já implorava por silêncio muito antes — o cansaço é a última oração que ninguém quis ouvir. Por Silver D’Madriaga Marraz Há um ponto em que a exaustão deixa de ser mero desgaste físico e se transforma numa revelação incômoda. O cansaço profundo — aquele que nenhuma noite de sono recompõe, que não se dissolve em feriados improvisados nem se intimida com mais uma xícara de café — é o encontro forçado entre corpo e consciência. É o instante em que as duas instâncias, normalmente separadas pela pressa, se alinham para dizer:…
Quando a política vira espetáculo, a verdade se torna detalhe — e o povo, plateia cativa de um show que nunca escreveu. Vivemos uma era em que o poder deixou de ser exercido e passou a ser performado. O político não governa: ele influencia. Não representa: ele engaja. Não debate: ele viraliza. A arena pública, antes espaço de conflito racional, virou palco, e o Estado converteu-se em uma espécie de indústria cultural refinada, onde a estética importa mais do que a ética, e a forma sufoca o conteúdo. A transformação é simples e perversa:o político virou celebridade e, como toda…
O preto que nega o próprio espelho também pratica o racismo disfarçado de redenção Por Silver D’Madriaga Marraz Nada é mais violento do que o preto que aprende a odiar em si o que o branco ensinou a rejeitar. Isto é um fato. O país que se diz mestiço nunca aprendeu a olhar a si mesmo sem disfarce. No Brasil, o racismo não se manifesta apenas na boca que ofende, mas no olhar que hierarquiza, na escola que apaga, na mídia que embranquece, e — o mais perverso — na mente de quem, para sobreviver, aprende a negar a própria…
A verdade surge da resistência, não da aparência, enquanto a consciência nasce do sofrimento como via de conhecimento Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos numa era obcecada pelo sucesso. Tudo o que não vence é descartado, tudo o que não brilha é esquecido. O fracasso, nesse cenário, tornou-se o grande inimigo da modernidade — o tabu silencioso de uma sociedade que só tolera vencedores. Mas talvez seja justamente nele, no território árido das perdas, que a verdade humana encontra seu abrigo mais honesto. O fracasso nos devolve ao que somos quando o aplauso cessa: vulneráveis, imperfeitos, reais. O sucesso é um…
O poder sempre fala alto demais para não ouvir o silêncio que denuncia sua culpa. Por Silver D’Madriaga Marraz O som da desigualdade não é o grito — é o contraste entre quem fala e quem não é ouvido. As periferias, condenadas à mudez institucional, sobrevivem entre vozes interrompidas e ecos que nunca retornam. Já as elites, acostumadas à reverberação de si mesmas, transformam qualquer sussurro em discurso, qualquer interesse em verdade. Vivemos numa sociedade em que o volume do poder define o valor da fala, e o silêncio dos esquecidos é confundido com consentimento. O silêncio das periferias não…
Transformamos o amor em espetáculo porque tememos o silêncio que revela quem realmente somos quando o palco se apaga. Por Silver D’Madriaga Marraz Amar, hoje, tornou-se um ato público. Já não basta sentir; é preciso demonstrar. O amor, antes território íntimo, migrou para o palco das aparências, onde a emoção é medida por gestos visíveis e a sinceridade se confunde com exposição. Vivemos tempos em que o afeto se transforma em linguagem performática — calculado, editado, compartilhado. O que deveria ser encontro tornou-se espetáculo. E o que era emoção passou a ser estratégia. A performance do amor não é uma…
Vivemos tão apressados em chegar que esquecemos de estar. Por Silver D’Madriaga Marraz A pressa tornou-se o novo ritmo do mundo. Já não se trata apenas de correr, mas de não saber parar. Vivemos num tempo em que a imobilidade é vista como falha, o silêncio como perda de tempo e o descanso como desperdício. O verbo “ser” foi substituído por “fazer”, e o fazer, por “produzir”. A lentidão passou a ser confundida com preguiça, e o ócio, com inutilidade. Assim, o presente deixou de ser morada e transformou-se em corredor — um espaço de passagem para o próximo objetivo,…
Nunca se falou tanto de amor — e nunca se amou tão pouco. Por Silver D’Madriaga Marraz O amor, que durante séculos foi território da entrega e do mistério, tornou-se mais uma vitrine na paisagem da visibilidade. Em tempos de performance emocional, amar deixou de ser verbo silencioso para se tornar espetáculo de afetos calculados. Declara-se amor em legendas, mede-se reciprocidade por tempo de resposta, traduz-se presença em notificações. O que antes era vivência íntima e inefável, hoje precisa ser publicamente validado para existir. Assim, o sentimento que deveria nos libertar se transforma em mais uma forma de vigilância: um…
Nunca estivemos tão cercados — e, paradoxalmente, tão sozinhos. Por Silver D’madriaga Marraz Vivemos em um tempo em que a solidão deixou de ser destino para se tornar projeto. A cultura do “eu” transformou o sujeito em empresa, a convivência em transação e o outro em obstáculo. Ser autônomo virou sinônimo de ser invulnerável; depender passou a ser sinônimo de fraqueza. E, nessa lógica, o laço humano — que sempre foi o fio invisível da civilização — começou a se romper, fio a fio, sob o peso da idolatria da independência. O individualismo contemporâneo não é apenas uma escolha moral,…