Por Isabel Braga e Ana Paula Tergilene
Há duas águas em Angra, e a assessoria de imprensa usa a mesma palavra para as duas. Uma pingou menos de um litro por dia no tanque de coleta da tampa do reator de Angra 2, numa condição que a Eletronuclear descreveu, em nota oficial de 21 de fevereiro de 2025, como prevista no projeto, sem Condição Limite de Operação aberta1. A outra saiu da laje de Angra 1, em 16 de setembro de 2022, por uma válvula com corrosão, pegou a chuva, entrou no sistema pluvial e foi parar na Baía de Itaorna: volume estimado em cerca de 90 litros, aviso que a Justiça Federal mediu em 21 dias de atraso, multa do Ibama de R$ 2,1 milhões2. Quem lê só a nota de 21 de fevereiro de 2025 sai convencido de que “vazamento” é calúnia. Quem lê o auto do Ibama sai convencido de que o problema nunca foi só o becquerel. Foi o relógio.
O Tribunal de Contas da União não precisou abrir o capô do reator para encontrar o padrão: no Acórdão 671/2026-Plenário, referente ao processo TC 008.118/2025-6, sob relatoria do ministro Walton Alencar Rodrigues, o Tribunal apurou R$ 5,3 bilhões em contratações por inviabilidade de competição, R$ 1,3 bilhão com empresa de capital incompatível com o contrato, e mais de 70% dos itens sem descrição no sistema3. Isso não prova que o selo da Angra 2 foi comprado torto. Prova que a estatal compra no escuro o bastante para qualquer contrato, seja peça nuclear ou carro da sede, escapar do pregão.
Nesse mesmo organograma, a Âmbar Energia, do grupo J&F, pagou R$ 535 milhões pela fatia que a Eletrobras tinha na Eletronuclear e assumiu R$ 2,4 bilhões em debêntures4. Meses depois, em 21 de agosto de 2026, o mesmo grupo notificou ao Cade a compra da Avibras, fabricante do sistema ASTROS e do míssil de cruzeiro MTC-3005. Carne, gás, urânio civil e míssil convencional debaixo do mesmo controlador. Isso não é Chernobyl privado. É um conglomerado que agora precisa de um muro entre suas áreas de negócio, e o Brasil ainda não disse quem constrói esse muro.
Três águas que não deveriam se misturar
Angra 1 e Angra 2 são reatores de água pressurizada, os chamados PWR. Para entender o que está em jogo, o leitor leigo precisa conhecer três circuitos distintos, não um slogan de “segura e limpa”.
No circuito primário, água desmineralizada sob cerca de 150 a 157 bar atravessa o núcleo do reator. O urânio-235 fende, libera calor, e a água sai numa temperatura entre 320 e 328 graus Celsius sem ferver, porque a pressão impede a ebulição. Essa água é radioativa e circula em circuito fechado, dentro da contenção de concreto.
No gerador de vapor, o circuito primário esquenta o circuito secundário através de milhares de tubos em formato de U, sem que os dois líquidos se misturem. O secundário vira vapor, movimenta a turbina, que por sua vez movimenta o gerador elétrico. Depois, esse vapor já utilizado precisa se transformar em água novamente.
É aí que entra o terceiro circuito: água do mar, captada na própria baía, passa pelo condensador, carrega o calor para fora e volta ao oceano de três a cinco graus mais quente do que entrou. É essa a chamada Praia do Laboratório. Se o projeto funciona como deveria, o mar nunca toca o urânio. O único modo clássico de o circuito primário contaminar o secundário é um tubo do gerador de vapor furar, o que já aconteceu em Angra 1, por corrosão de um material chamado Inconel 600, e levou à troca completa dos geradores6.
A tampa do vaso do reator tem dois anéis de vedação concêntricos. A Eletronuclear afirma, na mesma nota de 21 de fevereiro de 2025, que eles são redundantes, ou seja, que um só já seria suficiente1. Entre os dois anéis existe uma câmara e um dreno. Se o primeiro anel pingar, o líquido deveria seguir para um tanque de coleta previsto no projeto original, e não para o sistema pluvial, muito menos para o mar. Esse é o desenho de segurança, segundo a reportagem do Jornal Opção de 22 de fevereiro de 2025, que reproduz o texto técnico da própria estatal sobre o funcionamento dos dois selos7. O desenho, porém, não é o histórico da usina.
Onde está cada vazamento, e o que a conta do litro significa
Em setembro de 2022, durante uma operação de recirculação e purificação em Angra 1, houve falha numa válvula de isolamento e admissão de resina dos leitos desmineralizadores, além de corrosão nos casulos de contenção. O líquido radiologicamente contaminado chegou à laje, pegou a chuva, entrou no sistema de águas pluviais, seguiu pelo canal de descarga e alcançou a Baía de Itaorna. O volume estimado pela CNEN e pela própria empresa foi de no máximo cerca de 90 litros8. A Eletronuclear classificou o episódio como “pequeno volume”, “baixo teor” e “incidente operacional”, com valores abaixo do limiar legal de acidente9. A CNEN, por sua vez, lembrou que um evento não intencional com consequência relevante para a proteção radiológica é, na leitura do órgão regulador, um acidente, e não apenas um incidente.
A linha do tempo da omissão é o que o Ibama e a Justiça acabaram fixando oficialmente10: o evento interno ocorreu em 16 de setembro; a chegada ao mar se deu por volta de 19 de setembro; a denúncia anônima ao INEA veio em 29 de setembro; a equipe do Ibama visitou a usina em 30 de setembro; em 7 de outubro de 2022 a Eletronuclear informou por carta que a acusação anônima não seria verídica; somente em 30 de janeiro de 2023 a empresa reconheceu oficialmente o vazamento por escrito; e em 28 de fevereiro de 2023 o Ibama aplicou as multas. A Justiça Federal, atendendo a pedido do Ministério Público Federal e do procurador da República Aldo de Campos Costa, determinou avaliação de danos11. Relatos do próprio Ibama, citados pelo CanalEnergia, mencionaram até quatro meses para a admissão formal do despejo no mar9. Em fevereiro de 2023, foram lavrados dois autos de infração: um de R$ 2.005.000 por lançar substância radioativa em desacordo com norma da CNEN, outro de R$ 101.000 por descumprir condicionante da licença ambiental, totalizando R$ 2,101 milhões10. A Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na usina em maio de 2023.
As amostras coletadas pela própria empresa na baía não indicaram radionuclídeo detectável, segundo a versão oficial da Eletronuclear. Já a CNEN registrou a presença de radionuclídeos artificiais em níveis que classificou como sem risco à população e ao meio ambiente. Esse dado descreve a dose de radiação. Não descreve, porém, o dever de comunicar o episódio já no dia 16.
Em audiência pública, a estatal chegou a citar um episódio de 1985, quando 1.700 litros teriam sido lançados ao mar, segundo a própria conta da empresa. Uma reportagem do Greenpeace publicada em 2011 falava em algo entre 20 e 25 mil litros, com dezenas de milhares de pessoas potencialmente expostas, número mencionado num levantamento da Fundação Heinrich Böll de 26 de junho de 202312. Não existe, até hoje, um único laudo público que confirme esse segundo número. Citar as duas versões é honestidade jornalística. Escolher apenas uma delas é campanha.
Já em dezembro de 2024, agora em Angra 2, o vazamento foi revelado pela colunista Natália Martins, do portal R7, em matéria publicada em 21 de fevereiro de 2025, republicada e detalhada pelo ND Mais13 e pelo O Primeiro Portal14. Segundo essas reportagens, o primeiro selo da tampa do reator começou a vazar, o evento foi percebido em 25 de dezembro de 2024, e o reparo ficaria para a manutenção seguinte, prevista para cerca de 12 meses depois, em fevereiro de 2026, apesar de o próprio manual de treinamento da usina, de 2004, recomendar reparo célere nesses casos. As reportagens também apontam que a nova gestão da Eletronuclear, liderada por Raul Lycurgo Leite, cortou despesas operacionais, incluindo a compra do selo de reserva, peça considerada ponto único de vulnerabilidade nos critérios de segurança nuclear, e que servidores da usina, sob condição de anonimato, relataram que a usina passou a operar em modo “estepe”.
A nota oficial da Eletronuclear, divulgada no mesmo dia 21 de fevereiro de 2025, admite uma “pequena passagem de água pelo primeiro selo, inferior a 1 litro por dia”, coletada no tanque previsto em projeto1. Segundo a nota, o segundo selo estaria “100% íntegro”, os dois seriam redundantes, “inexiste CLO aberta”, a usina operava a 100% de potência em “condição verde”, inspetores da CNEN acompanhavam a situação 24 horas por dia e “estavam cientes”, o fabricante citado é a Framatome, e tanto o chefe da usina quanto o inspetor têm autonomia para pedir o desligamento a qualquer momento.
Curiosamente, a mesma nota chama o episódio de “suposto vazamento” duas linhas antes de descrevê-lo em detalhes. Ela não traz a data exata da descoberta, a data prevista da troca, a atividade radioativa da água coletada, nem a classificação na escala INES. Critica o manual de 2004, mas não reproduz o trecho da especificação técnica vigente que define o limite do chamado identified leakage. Um litro por dia equivale a 365 litros por ano, desde que fiquem contidos no tanque. Em reatores PWR ao redor do mundo, o vazamento identificado do circuito primário tem um teto definido em especificação técnica; ao ultrapassá-lo, a usina precisa desligar. O fato de a CLO estar fechada, na versão da própria empresa, significa que, nesse recorte específico, o papel da CNEN não obrigou a parada da usina. É razoável não tratar esse litro diário como uma emergência geral do plano de emergência externo. Não é razoável, no entanto, tratá-lo como se não existisse. Com o primeiro selo já comprometido, o sistema de defesa em profundidade perdeu uma de suas camadas. O risco residual passa a ser a falha do segundo selo somada à falha do dreno. Isso se chama barreira reduzida, e não “risco zero”.
A Defesa Civil municipal de Angra dos Reis, em parecer datado de 2026, registrou as denúncias recebidas, encaminhou o assunto aos órgãos competentes e declarou que, até aquele momento, nenhum regulador havia classificado o episódio como emergência radiológica ou nuclear com risco iminente à população15. Esse parecer descreve o estado do Plano de Emergência Externo, com suas zonas de 3, 5, 10 e 15 quilômetros, e o protocolo municipal de distribuição de iodeto de potássio. Não descreve, porém, a integridade do elastômero do primeiro selo. Quem transforma esse parágrafo da Defesa Civil em um simples “está tudo bem” acaba fazendo, de graça, o trabalho da assessoria de imprensa.
Angra 1 não é Angra 2. Nenhuma das duas é Angra 3
Angra 1 é um projeto Westinghouse, com dois loops, potência líquida na casa de 609 a 657 megawatts, cuja construção começou em 1971 e 1972 e que entrou em operação comercial em 1985. A previsão original, de operação comercial já em 1977, era propaganda. O sincronismo com a rede só ocorreu em 1982, e a operação comercial de fato começou apenas no fim de 1984 ou em 1985, segundo relatório de engenheiros de Furnas depositado no sistema INIS da Agência Internacional de Energia Atômica, sob o registro 1702320816. Esse relatório lista o que deu errado no cronograma da obra: excesso de otimismo inicial, revisão contínua de projeto, atraso de documentos por parte da Westinghouse e conflitos com a construtora Odebrecht na parte civil.
Houve também falhas de desenho, e não apenas de execução da obra. A usina apresentou vibração excessiva nos tubos do gerador de vapor, o mesmo tipo de erro Westinghouse já observado nas usinas de Ringhals, na Suécia, e Almaraz, na Espanha. A potência ficou limitada a 30%, depois a 50%, até meados de 1983. A correção do problema, somada à remoção de luvas térmicas, outro erro de projeto, exigiu 201 dias de parada, entre 16 de abril e 3 de novembro de 198316. Já em 7 de agosto de 2003, um fenômeno de corrosão sob tensão nos tubos de Inconel 600 provocou um aumento súbito no vazamento entre os circuitos primário e secundário, o que levou à substituição completa dos geradores de vapor6. No combustível, houve o fenômeno técnico chamado grid-to-rod fretting nos ciclos de operação 4, 6 e 7, com um sexto dos elementos combustíveis falhando já no ciclo 4, o que obrigou a recompra de um núcleo inteiro da Westinghouse para o ciclo 817. Entre 2005 e 2006, trincas por fadiga na chamada lead box do gerador elétrico, causadas por ressonância a 30,3 hertz contra os 1.800 rotações por minuto da máquina, provocaram vazamento de hidrogênio e vários desligamentos18.
Angra 2, por sua vez, é um projeto Siemens e KWU, da geração anterior à chamada Konvoi, com quatro geradores de vapor e potência líquida entre 1.245 e 1.275 megawatts, tendo entrado em operação comercial em 2001. Seu fator de capacidade ficou, em vários anos, na casa de 90%. O episódio mais recente envolvendo essa usina é o do selo da tampa, não o da baía. Angra 3, por fim, é a usina irmã, um pouco maior, com potência prevista em torno de 1.405 megawatts no papel, mas que até hoje nunca gerou um único watt de eletricidade.
O valor já investido em Angra 3 é da ordem de R$ 12 bilhões. Para concluir a obra, um estudo conjunto do BNDES e da Eletronuclear estima que seriam necessários cerca de R$ 23,9 bilhões adicionais, com operação comercial empurrada para 2033 e tarifa de equilíbrio entre R$ 778,86 e R$ 817,27 por megawatt-hora20. Para efeito de comparação, essa mesma tarifa era de R$ 480 em 2018 e de R$ 653 na versão anterior do estudo. Já abandonar a obra custaria entre R$ 21,9 e R$ 25,97 bilhões. A inércia do Conselho Nacional de Política Energética já queimou cerca de R$ 2 bilhões em dois anos de canteiro parado21. O Fiscobras de 2025 apontou um orçamento de referência com acréscimo linear de 5% sem justificativa técnica, BDI elevado e preços de referência de 2008 e 2013; foram identificados R$ 411 milhões já corrigidos na fiscalização, com potencial de chegar a até R$ 1,35 bilhão22. Em 11 de fevereiro de 2026, o Plenário do TCU julgou irregulares as contas da retomada da obra civil, apontando prejuízo de R$ 341.379.941,81, na base de julho de 2008, envolvendo a construtora Andrade Gutierrez e gestores da estatal; entre os que não colaboraram com a fiscalização, Othon Luiz Pinheiro da Silva e Luiz Antônio de Amorim Soares foram inabilitados por cinco anos23. A CGU, também em 2026, apontou que a estatal não tem plano de contingência caso a retomada da obra pare novamente, além de risco no cronograma de equipamentos e uma situação de caixa classificada como grave24. A Eletronuclear já retirou R$ 900 milhões da receita de Angra 1 e 2 para sustentar a obra de Angra 3 até outubro de 2025, e a indefinição sobre o projeto custa hoje cerca de R$ 1 bilhão por ano20.
Motor e risco: por que Angra não é Chernobyl nem Fukushima, e o que ainda é risco
Comparar uma usina em operação com um acidente histórico, sem explicar o que de fato diferencia os dois casos, é o truque clássico de quem quer espalhar pânico. A comparação que o leitor leigo precisa entender é técnica, e não retórica.
Chernobyl, em 26 de abril de 1986, envolvia um reator do tipo RBMK, refrigerado a água fervente e moderado a grafite, com coeficiente de vazio positivo em certas faixas de operação, o que significa que a perda de água podia, paradoxalmente, aumentar a potência do reator em vez de reduzi-la. A usina não tinha prédio de contenção nos padrões ocidentais. Um teste de turbina mal conduzido, somado a barras de controle com ponta de grafite que, no primeiro segundo de inserção, aumentavam a reatividade em vez de reduzi-la, levou o núcleo a se abrir diretamente para a atmosfera. O evento foi classificado como nível 7 na escala INES da AIEA, o mais alto possível. Houve mortes imediatas entre a equipe e os bombeiros, formação de nuvem radioativa, criação de zona de exclusão e aumento de câncer de tireoide entre crianças expostas à pluma de iodo. Não existe “selo de tampa” que descreva um acidente desse tipo. Ali, o teto do reator literalmente saiu do lugar.
Fukushima Daiichi, em 11 de março de 2011, envolvia reatores do tipo BWR, nos quais a água ferve dentro do próprio vaso do reator. Um terremoto seguido de tsunami, com altura acima da cota prevista em projeto, inundou os geradores a diesel instalados no subsolo da usina. Sem eletricidade disponível para acionar as bombas de resfriamento, o núcleo de três unidades acabou fundindo. A explosão de hidrogênio destruiu os prédios dos reatores. Água de resfriamento de emergência, já contaminada, chegou ao mar em escala de milhares de metros cúbicos, e não de dezenas de litros. O evento também foi classificado como nível 7 na escala INES. As mortes, nesse caso, decorreram principalmente do próprio tsunami, e não de dose aguda de radiação na cidade; dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas, e o debate sobre o lançamento, anos depois, de água tratada no oceano Pacífico segue em aberto até hoje.
Angra 1 e Angra 2 são reatores PWR19. A água do circuito primário não ferve. O moderador e o refrigerante são a mesma água leve. O coeficiente de vazio, no desenho ocidental desse tipo de reator, é negativo: quando a usina perde água, perde também moderação, e a reação em cadeia diminui, não aumenta. Existe contenção de concreto. Existem dois selos na tampa do reator. Existe inspetor da CNEN, hoje ANSN, permanentemente na usina. Existe um Plano de Emergência Externo estadual. Nada disso torna a planta imune a uma perda de refrigerante, a um tubo de gerador de vapor rompido, a uma perda de energia externa, a erro humano, a corrosão ou a compras feitas sem a devida transparência. Mas torna o encadeamento que caracterizou Chernobyl, o de uma potência que sobe justamente quando a água desaparece, um fenômeno fisicamente diferente do que existe em Angra.
O risco que a documentação pública brasileira efetivamente registra não é o de um teto voando pelos ares. É, primeiro, o de uma barreira de vedação que já opera com apenas uma camada de proteção em Angra 2; segundo, o histórico de um projeto Westinghouse que precisou de sucessivos remendos em Angra 1; terceiro, uma comunicação institucional que tende a classificar os eventos para baixo e atrasar o aviso às autoridades; quarto, a ausência de um depósito definitivo para os rejeitos radioativos, já que a própria ANSN afirmou que, sem o chamado Centena ou equivalente, as usinas 1 e 2 podem precisar parar por volta de 203025; quinto, um caixa da estatal já comprometido pelos custos de Angra 3 e pela extensão de vida de Angra 1; e sexto, um volume bilionário de compras feitas por inexigibilidade de licitação.
Springfield reconhece a língua, não o núcleo
A Usina Nuclear de Springfield, dos Simpsons, é uma sátira sobre regulador capturado e diretor que mede sucesso pelo silêncio da imprensa. Homer Simpson não é o operador de Angra 2. O peixe de três olhos do desenho não é a amostragem coletada em Itaorna. Quem usa esse desenho animado para sugerir que o Brasil está prestes a explodir mente duas vezes ao mesmo tempo.
O que o desenho acerta é o vocabulário institucional. “Incidente operacional.” “Condição verde.” “Pequeno volume.” “Desinformação que gera insegurança nos vizinhos.” É exatamente o tom do Sr. Burns quando o folder de comunicação já saiu, mas o peixe continua no rio. Esse vocabulário cabe perfeitamente numa nota de esclarecimento. Não deveria caber, porém, numa manchete de jornal.
Quem deveria ter visto, e o que cada um pode fazer
A ANSN, o braço de segurança que foi desmembrado da CNEN, é responsável por licenciar a operação das usinas, manter inspetor residente 24 horas por dia, ler diariamente o relatório RASO, decidir se abre ou não uma Condição Limite de Operação e classificar os eventos na escala INES. O Ibama controla a licença ambiental e as respectivas condicionantes, além de aplicar multas. O INEA, no âmbito estadual, recebe denúncias e monitora a baía. O Ministério Público Federal e a Justiça Federal de Angra processam eventuais omissões e danos; em 13 de outubro de 2025, essa mesma Justiça considerou regular o licenciamento da UAS, o pátio seco de combustível usado, contrariando o entendimento do próprio MPF26.
A Polícia Federal abriu inquérito sobre o caso de 2022. O TCU e a CGU acompanham a parte financeira. O ONS cuida do despacho de megawatts no Sistema Interligado Nacional, não do selo do reator. A Agência Internacional de Energia Atômica realiza missões de avaliação, como a OSART, e depois se retira. A Defesa Civil aciona o Plano de Emergência Externo apenas se o regulador declarar emergência. Em 2 de agosto de 2026, o Ministério Público Federal ainda investiga o que a publicação chamou de apagão nos Relatórios de Monitoramento Radiológico Ambiental desde 2018, com nota de contestação da Eletronuclear divulgada no mesmo ciclo de reportagens27. A Eletronuclear afirma que encaminha esses dados à ANSN e ao Ibama regularmente. Publicá-los diretamente para o morador de Itaorna é, no entanto, uma frase completamente diferente.
A folha, a greve e a mão que troca o selo
A estatal anunciou um plano de austeridade que pode chegar a R$ 500 milhões até o fim de 2026, com Plano de Demissão Voluntária, corte de despesas administrativas, transferência de funcionários do Rio para Angra e redução de cargos de chefia28. Segundo a mesma reportagem, cerca de 150 salários dentro da empresa são superiores ao de um ministro do Supremo Tribunal Federal. A meta original do PDV de 2024 era de 485 pessoas, mas a adesão ficou entre 133 e 138 funcionários, com desembolso previsto de cerca de R$ 56 milhões, distribuído ao longo de 202529. Como a meta não foi atingida, a empresa tentou um plano de demissão compulsória de 90 aposentados. Em 8 de abril de 2025, a juíza Valeska Facure Pereira, da 8ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, no processo 0100384-21.2025.5.01.0008, determinou a reintegração desses trabalhadores, suspendeu o plano e fixou multa de R$ 500 por dia por pessoa em caso de descumprimento30. Já o pedido do sindicato para que fosse elaborado um plano de contingência de segurança nas usinas, diante da falta de pessoal, foi indeferido, já que não havia documento técnico comprovando o risco operacional, apenas alegação verbal.
A greve que se seguiu a esse episódio terminou em 29 de abril: o plano compulsório virou voluntário, e o reajuste salarial ficou em 3,69%, equivalente ao IPCA do período31. Já em março de 2026, cerca de 800 trabalhadores da empresa terceirizada APPA Serviços, responsável pela manutenção de parada de Angra 1 e 2, ficaram sem salário e sem reajuste havia cinco anos, chegando a fechar o portão de Itaorna por três horas em protesto32. Os salários dessa categoria variam entre R$ 2.450 e R$ 14.600. A folha de pagamento só vira notícia de fato quando a mão que faz a manutenção da usina para de receber. Até esse ponto, é apenas um acordo coletivo em negociação.
O que a diretoria já foi, e o que a frota ainda não é
A Operação Radioatividade, desdobramento carioca da Lava Jato, condenou Othon Luiz Pinheiro da Silva a 43 anos de prisão em primeira instância, na sentença do juiz Marcelo Bretas, em 201633. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região reduziu essa pena, em 31 de março de 2022, para 4 anos e 10 meses, já convertida em penas restritivas de direitos; os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro permaneceram, mas caíram as acusações de organização criminosa, obstrução de justiça e evasão de divisas34. Sua filha, Ana Cristina, foi absolvida pelo Tribunal. Já a ação de improbidade envolvendo a AF Consult, a Engevix e nomes como Michel Temer, Moreira Franco e o próprio almirante Othon foi julgada improcedente em 26 e 27 de novembro de 2025 pela 11ª Vara Federal do Rio, com a juíza afirmando não ter encontrado provas além de uma delação premiada já rejeitada na esfera criminal35.
O verdadeiro fluxo da propina, segundo os relatórios da CGU — especificamente o PAR 00190.111835/2022-18, referente ao escritório Monteiro e Cavalcanti Advogados, que teve inidoneidade recomendada pelo órgão, e a Nota Técnica 1990/2022, referente às empresas Aratec, ACECO e Dema —, não passou pelo aluguel de carros da diretoria36. Passou também pela VW Refrigeração, envolvida num esquema de lavagem de R$ 2,3 milhões batizado de Pripyat37, e pela SNC-Lavalin em parceria com a Marte Engenharia, num contrato de 2011 avaliado em cerca de R$ 16,75 milhões.
O Relatório de Gestão de 2013 da própria Eletronuclear já justificava a manutenção de frota própria pela necessidade de o Plano de Emergência Local funcionar mesmo em caso de greve de motoristas, além de manter também uma frota alugada. O contrato com a Sibelly Transportes, identificado como GCC.A/CT-507/2008, previa para o período entre 2009 e 2014 o valor de R$ 12.548.939,11, sendo R$ 2,68 milhões somente em 201338. A empresa TRANSVEPAR atendia a sede no Rio, além de Brasília e Recife. Sobre eventual uso pessoal de veículo por parte da diretoria atual, não há, até o momento, qualquer acórdão público que trate do assunto. Sem placa identificada, empenho registrado e dado de telemetria, qualquer afirmação nesse sentido seria apenas especulação.
Licitações: a regra que virou exceção
O Acórdão 671/2026 do TCU apurou que as inexigibilidades de licitação da Eletronuclear somaram, no período analisado, R$ 5,3 bilhões3. Somente em 2024, foram 106 atos desse tipo, totalizando R$ 700.897.797. Em 2025, no recorte disponível, foram 47 atos, somando R$ 51,8 milhões. As dispensas de licitação por valor somaram 1.348 atos em 2024, num total de R$ 28,2 milhões, e 448 atos em 2025, totalizando R$ 10,7 milhões. Em situações de emergência, foram quatro atos em 2025, no valor de R$ 7,2 milhões. Já os pregões eletrônicos somaram 215 processos em 2024, totalizando R$ 297,6 milhões, enquanto apenas uma única licitação seguindo a Lei 13.303 foi realizada naquele ano, no valor de R$ 1,22 bilhão. Uma auditoria interna de maio de 2024 já apontava falhas graves nos processos de inexigibilidade. O sistema LabContas identificou 573 sinais de alerta, sendo 406 relacionados a fornecedores com capital social desproporcional ao valor do contrato, somando R$ 1,3 bilhão apenas na Eletronuclear; mais de 70% dos itens de compra estavam sem descrição adequada, e R$ 604,9 milhões sequer puderam ser devidamente classificados pelo próprio Tribunal.
O TCU já havia emitido, em ocasiões anteriores, medidas cautelares ou notas de ciência sobre outros episódios, registrados nos processos TC 004.103/2025-4, referente à extensão de vida de Angra 1, e TC 005.124/2017-4, referente a adiantamentos às empresas Westinghouse e ABB entre 55% e 80% do valor do contrato, com o equipamento ainda na fábrica e sem a garantia prevista no Decreto 93.87239. Já em 20 de agosto de 2025, a licitação internacional identificada como DAB.A/LI-001/2025, referente a quatro caixas redutoras das válvulas de bloqueio de Angra 2, foi declarada fracassada40. Um fracasso de licitação seguido de inexigibilidade costuma abrir caminho para o argumento de que “só um fornecedor é capaz de entregar o produto”. O código de identificação da unidade compradora no portal ComprasNet é 910847. O portal mostra o andamento do pregão. Já os detalhes mais sensíveis das contratações seguem guardados no sistema interno SAP da estatal.
A luz do país: sobra de dia, aperto ao entardecer
Angra 1 e Angra 2 juntas respondem por cerca de 2% de toda a eletricidade gerada no Brasil. O Balanço Energético Nacional, em sua síntese de 2026, elaborada pela Empresa de Pesquisa Energética, registra 15.834 gigawatts-hora de origem nuclear em 2025, contra 15.767 gigawatts-hora em 202441. O sistema elétrico brasileiro não está, portanto, no escuro. O problema que o ONS efetivamente descreve é outro: sobra de potência durante o dia, quando a energia solar enche a rede. Em 2025, foi necessário cortar cerca de 20% de toda a geração eólica e solar centralizada do país; uma consultoria citada pela reportagem estimou esse corte em 4,02 gigawatts médios, com prejuízo de aproximadamente R$ 6,5 bilhões para as próprias geradoras42. O diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, resumiu o problema: já não faz mais sentido injetar megawatt novo no horário diurno, já que isso apenas desloca um megawatt que já existe na rede43.
A energia nuclear, diferentemente da solar, é firme e disponível 24 horas por dia, além de estar localizada perto dos grandes centros de consumo do Sudeste. Ela não compete com o horário de pico solar do meio-dia. O argumento a favor de Angra 3, nesse sentido, está justamente no entardecer e durante a noite, quando a geração solar desaparece. O problema é que o preço estimado, entre R$ 780 e R$ 817 por megawatt-hora, compete mal com hidrelétricas já amortizadas, ainda que precise ser comparado também com o custo de não ter energia de base disponível quando o sol se põe. E sem a construção do Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental, conhecido como Centena, ou de uma solução equivalente, a própria ANSN já apontou fortes indícios de inviabilidade de haver um depósito definitivo de rejeitos até 2030, com risco real de interrupção de Angra 1 e Angra 225.
A J&F na mesa do urânio: o negócio, o desconto e o controle
Em 15 de outubro de 2025, a Eletrobras, hoje rebatizada Axia, anunciou a venda de toda a participação que mantinha na Eletronuclear para a Âmbar Energia, unidade do grupo J&F Investimentos, controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista4. O preço pago pela fatia foi de R$ 535 milhões. Além disso, a compradora assumiu as garantias que a Eletrobras prestava em favor da Eletronuclear, além da obrigação de integralizar as debêntures previstas no Termo de Conciliação 7/2025, firmado entre a CCAF, a CGU e a AGU com a União, no valor de R$ 2,4 bilhões, recurso pensado sobretudo para financiar a extensão de vida de Angra 144.
A aritmética por trás do desconto é algo que a Eletrobras não destacou na comunicação sobre a venda. A fatia estava registrada no balanço da coligada em cerca de R$ 7,8 bilhões no segundo trimestre de 202545. A venda gerou uma provisão contábil da ordem de R$ 7 bilhões já no terceiro trimestre46, que também cita análise do Itaú BBA sobre os impactos da operação. Na prática, quem comprou pagou R$ 535 milhões à vista e herdou R$ 2,4 bilhões em papéis para integralizar depois. Quem vendeu, por outro lado, se desfez de um ativo nuclear que o próprio acordo homologado no STF e o processo de privatização da Eletrobras tornaram incômodo: a União queria manter a estatal elétrica distante do canteiro de obras de Angra 3, e o termo homologado pelo Supremo em dezembro de 2025 desobriga a Axia de fazer novos aportes financeiros no projeto.
Depois de concluída a operação, a composição acionária ficará da seguinte forma: a Âmbar com 68% do capital total e 35,3% do capital votante, e a União, por meio da ENBPar, com 64,7% do capital votante e cerca de 32% do capital total47. O Cade aprovou a operação sem qualquer restrição em 1º de dezembro de 2025, concluindo que ela não tem o condão de causar prejuízos ao ambiente concorrencial, que a J&F não passará a deter o controle da empresa e que o governo continuará sendo o controlador48. Vale lembrar que, no direito societário brasileiro aplicado a uma empresa nuclear, controle não é simplesmente quem detém mais ações ordinárias no anúncio de fato relevante. É quem indica a maioria daquilo que o estatuto social chama de comando da empresa, e a Constituição brasileira reserva a atividade nuclear exclusivamente à União. A Âmbar passa a ser, assim, a única empresa privada sentada a essa mesa. Isso não a torna, porém, dona da chave do reator.
A Âmbar nasceu em 2015, a partir de uma usina térmica em Cuiabá. Ao longo dos anos, comprou ativos térmicos da própria Eletrobras, num pacote de R$ 4,7 bilhões fechado em 2024, além da usina de Araucária e de ativos no Amazonas e em Roraima, e também passou a negociar gás boliviano. Depois da entrada na Eletronuclear, o grupo passou a falar publicamente em cerca de 50 usinas e 6,5 gigawatts de capacidade instalada, ocupando a sexta posição entre as maiores geradoras do país49. Marcelo Zanatta, presidente da Âmbar, declarou que “a energia nuclear combina estabilidade, previsibilidade e baixas emissões”, defendendo a operação como fonte de receita estável e descrevendo a empresa como o único player privado com posição no setor nuclear brasileiro50. Esse discurso, porém, é de apresentação a investidores. A usina em si continua sendo objeto de licenciamento pela ANSN, não de slide de relação com investidores.
O que essa compra não resolve: ela não paga, sozinha, os R$ 24 bilhões necessários para concluir Angra 3. Não cria o Centena. Não conserta o selo da tampa do reator. Não publica o relatório RASO para o público. O que essa compra efetivamente faz é colocar um caixa privado, o mesmo grupo que controla o maior frigorífico do mundo, como sócio direto da receita gerada por Angra 1 e Angra 2, justamente a mesma receita que a estatal já vem usando para sustentar as obras de Angra 3. Trata-se de um conflito de interesse interno bastante clássico: o acionista minoritário votante privado quer receber dividendos da usina que está em operação; o controlador estatal quer, acima de tudo, ver Angra 3 concluída; e a extensão de vida de Angra 1 disputa exatamente os mesmos R$ 2,4 bilhões de debêntures. São três necessidades disputando o mesmo prato.
Existe, além disso, uma lacuna regulatória que o Cade simplesmente não cobre. O órgão antitruste avalia se o mercado de energia se torna menos competitivo com a operação. Ele não pergunta se o sócio privado de uma central nuclear tem, em outro CNPJ do mesmo grupo controlador, uma fábrica de mísseis de cruzeiro. Não pergunta se um engenheiro responsável pela extensão de vida de Angra 1 poderia ser recontratado pela Avibras. Não pergunta se a garantia dada sobre a receita nuclear pode, de alguma forma, avalizar dívida ligada ao setor de defesa. A ANSN licencia apenas a instalação nuclear em si. Não existe, no recorte público disponível até agora, nenhum tipo de veto por parte de acionista com base em critérios de segurança nacional, algo equivalente ao que o CFIUS faz nos Estados Unidos. O Requerimento de Informação 6.617/2025, apresentado na Câmara dos Deputados, questionou o Ministério de Minas e Energia sobre quais critérios técnicos de segurança foram exigidos da J&F como sócia da Eletronuclear51. A resposta institucional recebida tratou apenas de governança da ENBPar e da ANEEL, sem qualquer menção a mudança de controle societário. Sobre critérios específicos de não proliferação nuclear aplicados ao novo sócio, a resposta simplesmente não existiu.
O mesmo sobrenome no pátio do ASTROS
Em 21 de agosto de 2026, a imprensa noticiou o acordo firmado pela Globe Investimentos, veículo de investimento já utilizado pelos irmãos Batista para adquirir uma fatia de 4,99% na siderúrgica Usiminas em 2025, para agora adquirir 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, empresa sediada em Jacareí. O valor da transação não foi divulgado, mas o negócio já foi notificado ao Cade5. As ações eram, até então, detidas pela Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. Advogados da Globe afirmaram formalmente ao Cade que a empresa pertence ao grupo J&F, mas alegaram tratar-se de investimento pessoal dos empresários, sem relação direta com a holding, e declararam ainda que nenhum membro dos órgãos de gestão do grupo J&F atua simultaneamente em órgãos de gestão de outras empresas do mesmo mercado relevante52.
A Avibras faz o sistema ASTROS, usado pelo Exército brasileiro, além do míssil tático de cruzeiro MTC-300, sistemas de defesa antiaérea, o programa Skyfire e propulsores para uso espacial. A empresa é classificada oficialmente como Empresa Estratégica de Defesa. Ela já passou por recuperação judicial, desde 2022, e por uma greve que se prolongou por mais de três anos, tendo reaberto suas atividades em maio de 202653. Joesley Batista já havia participado de um aporte de R$ 300 milhões destinado à retomada da empresa. A Câmara dos Deputados solicitou informações ao Ministério da Defesa sobre a aquisição.
É importante deixar claro que esse negócio não tem relação com a CBC ou a Taurus, fabricantes de munição e pistolas ligadas a outro grupo empresarial, nem com a IMBEL, que é uma empresa estatal. A Avibras trabalha com artilharia de foguete e mísseis de tecnologia convencional, e não com ogiva nuclear, que não faz parte de seu portfólio. O Tratado de Não Proliferação Nuclear, o Tratado de Tlatelolco e a própria Constituição brasileira vinculam o programa de Angra a fins exclusivamente pacíficos. As salvaguardas aplicadas pela Agência Internacional de Energia Atômica contabilizam a pasta de combustível nuclear, não o sistema ASTROS. Quem afirma que o selo da tampa de Angra alimenta de alguma forma o míssil MTC-300 está enganado tanto sobre a física envolvida quanto sobre o papel exercido pela agência em Viena.
O que de fato chama atenção, e que é raro nesse grau dentro do capitalismo brasileiro, é a proximidade entre os dois negócios. O mesmo grupo controlador passa a deter, simultaneamente, participação numa usina nuclear e numa fábrica de mísseis de cruzeiro. No jargão do controle internacional de exportações, esse fenômeno é chamado de adjacência de uso duplo, ou dual-use adjacency. Não porque um reator PWR possa se transformar em bomba dentro do pátio de Jacareí, mas porque pessoas, dados, fornecedores e garantias financeiras podem, em tese, atravessar o corredor do mesmo organograma corporativo. O tipo de muro que um Estado mais rigoroso normalmente constrói nesses casos inclui conselhos de administração sem sobreposição de membros, cláusulas de não contratação cruzada de engenheiros ligados à central nuclear, vedação de garantias cruzadas envolvendo a receita de Angra e relatórios separados enviados à ANSN e ao Ministério da Defesa. Até agosto de 2026, no recorte público disponível, nenhuma dessas medidas havia sido anunciada.
A pergunta que fica, portanto, não é se os irmãos Batista pretendem fabricar uma bomba nuclear. A pergunta relevante é outra: quem, no Brasil, tem competência legal para dizer não a um sócio privado de uma empresa nuclear que, no mês seguinte, compra uma linha de produção de mísseis como o ASTROS? Enquanto a resposta institucional continuar sendo que o Cade analisou o setor de energia e vai analisar o setor de defesa em processos separados, esse muro de proteção segue existindo apenas como figura de linguagem.
O que a leitura autoriza, e o que não autoriza
Os documentos públicos analisados autorizam afirmar que, em 2022, houve despejo no mar e falha de comunicação, com multa e busca e apreensão confirmadas. Autorizam dizer que o episódio de 2024 e 2025 se trata de uma goteira num selo, contida dentro dos limites da usina, com o segundo selo intacto no papel, reparo já previsto no calendário de manutenção, mas com o número exato de becquerel ainda não publicado. Autorizam afirmar que Angra 1 carrega um histórico documentado de remendos sucessivos num projeto originalmente da Westinghouse. Autorizam dizer que Angra 3 representa um estouro de orçamento, com condenação por propina julgada apenas parcialmente e uma obra que, parada, custa mais caro do que muita gente está disposta a admitir. Autorizam afirmar que a estatal realiza compras sem transparência adequada na casa dos bilhões de reais. E autorizam dizer que a J&F comprou seu assento na mesa com desconto significativo e, na janela seguinte, comprou também a fábrica de mísseis.
O que esses mesmos documentos não autorizam é afirmar que o Brasil tem um reator do tipo RBMK instalado no litoral fluminense. Não autorizam traduzir um litro de água pingando num tanque em necessidade de evacuação de Paraty. Não autorizam transformar um parecer da Defesa Civil em laudo técnico sobre o vaso do reator. E não autorizam, de forma nenhuma, a frase “fábrica de bomba da J&F”.
A frase que deveria ter constado no boletim de 16 de setembro de 2022, e que não constou, seria algo como: houve uma liberação não programada, foram cerca de 90 litros, o material seguiu para o sistema pluvial e depois para o mar, a CNEN e o Ibama serão avisados ainda hoje, a amostragem sai nesta semana, a classificação na escala INES está em análise.
Já a frase que efetivamente cabe no relatório RASO de Angra 2 seria: o primeiro selo apresenta passagem inferior a um litro por dia, coletada regularmente no tanque previsto em projeto; o segundo selo permanece íntegro; não há Condição Limite de Operação aberta; a troca está prevista para a próxima parada de manutenção; caso o vazamento aumente até determinado limite, a usina será desligada.
São, no fim das contas, duas frases relativamente simples, que caberiam facilmente num único parágrafo. A campanha de comunicação, porém, precisava de uma única palavra, “segura”, justamente onde a documentação técnica exigia um método detalhado de verificação. O desenho animado de Springfield reconhece esse truque de comunicação. Itaorna, por sua vez, precisa é do número exato.
Por Isabel Braga e Ana Paula Tergilene
Obervação: Este artigo interpreta documentos públicos. Não é laudo radiológico nem ordem de evacuação.
Referências
As citações no texto correspondem aos números abaixo. Fontes repetidas no corpo recebem o mesmo número da primeira ocorrência.
1. ELETRONUCLEAR. Nota de esclarecimento à matéria publicada pelo R7. 21 fev. 2025. https://www.eletronuclear.gov.br/Imprensa-e-Midias/Paginas/Nota-de-esclarecimento-%C3%A0-mat%C3%A9ria-publicada-pelo-R7.aspx
2. TECMUNDO. Usina Angra 1 multada por omitir vazamento de água contaminada. 24 mar. 2023. https://www.tecmundo.com.br/ciencia/262141-usina-angra-1-multada-omitir-vazamento-agua-contaminada.htm
3. TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Auditoria avalia riscos nas contratações das estatais nucleares. Acórdão 671/2026-Plenário, processo TC 008.118/2025-6, relator ministro Walton Alencar Rodrigues. Portal do TCU.
4. AGÊNCIA BRASIL. Eletrobras vende participação na Eletronuclear para o grupo J&F. 15 out. 2025. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-10/eletrobras-vende-participacao-na-eletronuclear-para-o-grupo-jf
5. BRASIL 247. Aquisição da Avibras pela Globe Investimentos, dos irmãos Batista, é notificada ao Cade. 24 ago. 2026. https://www.brasil247.com/negocios/aquisicao-da-avibras-pela-globe-investimentos-dos-irmaos-batista-e-notificada-ao-cade/
6. ELETRONUCLEAR. Relato técnico sobre corrosão em tubos de Inconel 600 e substituição dos geradores de vapor de Angra 1. Sistema INIS da Agência Internacional de Energia Atômica.
7. JORNAL OPÇÃO. Usina nuclear Angra 2 apresenta vazamento; entenda. 22 fev. 2025. https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/usina-nuclear-angra-2-apresenta-vazamento-entenda-682700/
8. RADIOAGÊNCIA NACIONAL / AGÊNCIA BRASIL. Usina de Angra 1 é multada por liberar material radioativo no mar. 24 mar. 2023. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2023-03/usina-de-angra-1-e-multada-por-liberar-material-radioativo-no-mar
9. CANALENERGIA. Eletronuclear demorou 4 meses para admitir vazamento de Angra 1, diz Ibama. 24 mar. 2023. https://www.canalenergia.com.br/noticias/53241649/eletronuclear-demorou-4-meses-para-admitir-vazamento-de-angra-1-diz-ibama
10. PODER360. Eletronuclear é multada por não informar vazamento radioativo. 23 mar. 2023. https://www.poder360.com.br/meio-ambiente/eletronuclear-e-multada-por-nao-informar-vazamento-radioativo/
11. REVISTA OESTE. Ibama multa Eletronuclear depois de vazamento de água radioativa. 24 mar. 2023. https://revistaoeste.com/brasil/ibama-multa-eletronuclear-depois-de-vazamento-de-agua-radioativa/
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13. MARTINS, Natália. Reportagem no portal R7, 21 fev. 2025; republicada e detalhada por ND Mais. https://ndmais.com.br/seguranca/vazamento-usina-nuclear-angra-2-preocupa/
14. O PRIMEIRO PORTAL. Usina nuclear Angra 2 tem vazamento no núcleo do reator e nova gestão adia reparo. https://oprimeiroportal.com/usina-nuclear-angra-2-tem-vazamento-no-nucleo-do-reator-e-nova-gestao-adia-reparo/
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49. O ESTADO DE S. PAULO. Âmbar Energia: cerca de 50 usinas e 6,5 GW de capacidade instalada, sexta maior geradora do país.
50. REPORTER MACEIÓ. Declaração de Marcelo Zanatta, presidente da Âmbar Energia, sobre a operação nuclear. https://reportermaceio.com.br/economia-eletrobras-vende-participacao-na-eletronuclear-por-r-535-milhoes-e-reforca-estrategia-de-otimizacao-de-portfolio-sob-novo-controle-da-ambar-energia/
51. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Requerimento de Informação 6.617/2025, dirigido ao Ministério de Minas e Energia, sobre critérios técnicos de segurança exigidos da J&F como sócia da Eletronuclear.
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53. JORNAL GGN. J&F compra Avibras e amplia presença na indústria de defesa brasileira. https://jornalggn.com.br/economia/jf-compra-avibras-e-amplia-presenca-na-industria-de-defesa-brasileira/
