Isabel de Fátima Alvim Braga, MD phD

A sopa do Rio não é uma metáfora única. É composta de três pratos. Quem junta urânio de poço fundo na Serra com acetato de uranila se engana. Quem separa as três panelas lê o que os periódicos publicaram: metal na rocha, fármaco no esgoto e droga no músculo do peixe que vai à feira.

O poço: 930 microgramas

Em 2019, José Marcus Godoy e o Laboratório de Caracterização de Águas da PUC-Rio publicaram no Journal of the Brazilian Chemical Society o que poços da Região Serrana devolvem quando a sonda passa dos 80 metros. Urânio até 930 µg/L.

O limite da Portaria de potabilidade e da OMS é 30. Trinta vezes.

Sete de dezesseis municípios da Serra. Radônio até 1.570 Bq/L. Chumbo-210 acima da orientação da OMS. Não é o Guandu. Não é a torneira de Copacabana. É água subterrânea de fratura, lixiviação de rocha, turismo, cervejaria e água mineral no mesmo mapa.

Em 2020 a PUC ofereceu análise gratuita. Em 2025, Lourenço e colegas reabriram São José do Vale do Rio Preto e acharam poços acima de 0,030 ppm. A recomendação do paper original segue no ar: poço artesiano fundo na Serra tem de ser testado para urânio e radônio.

A ANSN lembrou o óbvio que a corrida nas redes esqueceu: rio e costa já carregam urânio natural em massa maior do que o inventário de qualquer bancada de microscopia. Mas quem provou a fonte do urânio nos poços artesianos que a PUC procurou?

E por que ninguém discute a instalação da INB em Resende em cima de um aquífero? A INB de Resende (Fábrica de Combustível Nuclear, em Engenheiro Passos) fica numa região com aquíferos. Não dá para afirmar, só com mapa público, que o galpão “está em cima de um único aquífero famoso”, mas o entorno hidrogeológico é esse.

A FCN fica no Vale do Paraíba do Sul, entre Serra do Mar e Mantiqueira, na Rodovia Presidente Dutra km 336. O rio Paraíba do Sul e a Represa do Funil estão no mesmo sistema da Bacia Sedimentar de Resende. Modelagens da bacia tratam o rio como efluente do aquífero: a água subterrânea drena para o rio e águas subterrâneas.

A própria INB admite água no sítio. O Programa de Monitoração Ambiental da FCN tem 37 pontos de água (27 dentro da fábrica e 10 fora, em Resende, Itatiaia, Areias, Queluz, Engenheiro Passos, Nhangapi, São Caetano, Funil e Ribeirão da Água Branca). Eles publicam, principalmente, urânio, fluoreto e nitrogênio amoniacal em água superficial no Ribeirão da Água Branca e dizem que, em 2025, os valores ficaram abaixo do limite do Conama. Não se afirma, com esses dados, que a fonte do urânio esteja nessa fábrica.

Fica a pergunta: se os níveis de urânio nesse nivel podem vir da terra, por que alguma agência colocaria o limite 30x abaixo do que seria natural?

O rio: o que a ETA não lista

O Guandu bebe esgoto e esgoto pode conter resíduos de medicamentos excretados em fezes e urina.

Aldo Pacheco Ferreira, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, mediu benzodiazepínicos na superfície que alimenta a maior estação de tratamento do estado: bromazepam 42 ng/L, clonazepam 198, diazepam 335. A população na ponta da Cedae é da ordem de dez milhões.

Em 2025, Water, Air & Soil Pollution publicou nove contaminantes de preocupação emergente no mesmo rio — benzofenona, bisfenol A, dietilftalato, nonilfenol, diazepam, bromazepam, clonazepam, ibuprofeno, trimetoprima — de abaixo do limite de quantificação até 7.570 ng/L. Bisfenol A e diazepam com risco ambiental (RQ ≥ 1).

Um levantamento estadual de 34 fármacos, cafeína e bisfenol-A, com acetaminofeno (paracetamol) na lista, não achou amostra limpa. Iguaçu–Sarapuí liderou o somatório (51,8 µg/L). O Guandu ficou em 1,46 µg/L. Diluição não é ausência. Ninguém sabe exatamente o limite seguro das substâncias em combinação.

A Poli-USP, fora da bacia, estimou paracetamol residual no Brasil entre 0,5 e 10 ng/L e lembrou as 500 toneladas anuais do comprimido. Serve de ordem de grandeza. Não substitui o ponto no Guandu. E não substitui a discussão pública sobre paracetamol ser enquadrado sobre fator de risco para autismo.

O que substitui o ponto é o boletim da Cedae: o laboratório da ETA Guandu entrega cloro, turbidez, coliforme, em mais de 35 pontos, com laudo no site. Não entrega diazepam. Não entrega paracetamol. Não entrega benzoilecgonina. A sopa do rio existe no periódico. Some no relatório que a concessionária chama de qualidade. E não dosam os níveis de radiação da água.

O mar: 13 em 13

Entre setembro de 2021 e agosto de 2023, barcos de pesca no Recreio dos Bandeirantes entregaram 13 tubarões-bico-fino (Rhizoprionodon lalandii), o cação-frango da peixaria.

O Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz, com UFSC e UFRJ, publicou em julho de 2024 na Science of the Total Environment: cocaína em 100% das amostras de músculo e fígado. Benzoilecgonina em 12. Músculo na casa de 23 µg/kg; fígado, 7. Três vezes mais droga que metabólito. Cerca de cem vezes o resíduo visto em outros animais marinhos. Autores apontaram o emissário da Barra e o esgoto que a estação não retém. Pacote jogado no mar é considerado hipótese fraca no próprio artigo.

Em 2026 o Marine Pollution Bulletin ampliou o cardápio. Raias-borboleta e tubarões-martelo jovens, mesma costa: cocaína, benzoilecgonina, diclofenaco, sulfametoxazol, fipronil, piroxicam. Uma raia concentrou o coquetel. Exposição recente, água costeira, urbanização do Recreio. O peixe entra na sopa duas vezes: como dado e como alimento. Recall, até aqui, nenhum.

O que a sopa não é

Não é um vírus de parada cardíaca no WhatsApp — a Fiocruz e a Cedae desmentiram o áudio desde 2020. Não é prova de que cada copo em Ipanema tem 930 µg de urânio. É prova de que o estado empilha três classes de contaminante em três águas que a lei trata de modo desigual.

Urânio tem teto na Portaria 888/2021. Fármaco e cocaína não têm. O Conama regula o rio por fósforo e DBO. O periódico regula o rio por nanograma de clonazepam. Os estudos costumam mostrar os efeitos de substâncias isoladamente. Raramente, se medem os efeitos aditivos de diversas substâncias consumidas simultaneamente.

Entre todos, eis a água da sopa que o bebê carioca consome. E também as fábricas de cerveja que fazem parte do turismo do Rio de Janeiro.

Referências

1.  Godoy, J. M. et al. High uranium concentrations in the groundwater of the Rio de Janeiro State, Brazil, mountainous region. J. Braz. Chem. Soc. 30(2):224–233, 2019. DOI 10.21577/0103-5053.20180171. Até 930 µg/L; 7/16 municípios; 222Rn até 1.570 Bq/L.

2.  SciELO. Mesmo artigo. https://www.scielo.br/j/jbchs/a/w9rMW3M3khTYChrkrZfxKPK

3.  Lourenço, J. et al. Uranium in groundwater: São José do Vale do Rio Preto. An. Acad. Bras. Cienc. 97(3), 2025. Poços acima de 0,030 ppm (Portaria MS 2914/2011).

4.  Agência Brasil, 2/12/2020. PUC-Rio faz análises gratuitas de água para detectar urânio em excesso.

5.  UOL Confere, 19/2/2026. É falso que pesquisa na Fiocruz contaminou o Rio de Janeiro com urânio. ANSN: urânio natural dos rios >> inventário laboratorial.

6.  Ferreira, A. P. Environmental investigation of psychiatric pharmaceuticals: Guandu River, Rio de Janeiro State. ENSP/Fiocruz. ARCA: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/15162. Bromazepam 42, clonazepam 198, diazepam 335 ng/L.

7.  Pharmaceuticals, personal care products and plasticizers in surface water… Guandu River Basin. Water Air Soil Pollut. 236:420, 2025. DOI 10.1007/s11270-025-08028-5. Até 7.570 ng/L; RQ≥1 para bisfenol A e diazepam.

8.  Ocorrência e distribuição de fármacos, cafeína e bisfenol-A em corpos hídricos no Estado do Rio de Janeiro. 34 fármacos incl. acetaminofeno. Iguaçu–Sarapuí 51,8 µg/L; Guandu 1,46 µg/L; nenhuma amostra livre.

9.  Jornal da USP, 4/6/2025. O desafio de engenheiros para remover resíduos de medicamentos da água potável. Gouvêa et al., Poli-USP. 500 t/ano de paracetamol no Brasil; 0,5–10 ng/L estimados.

10.  Cedae. Relatórios de controle de qualidade — Sistema Guandu. https://www.cedae.com.br/relatoriosguandu

11.  G1 Fato ou Fake, 25/2/2026. É fake que a água do Rio está contaminada com vírus que causa parada cardíaca. Notas Fiocruz e Cedae.

12.  Hauser-Davis, R. A.; Saggioro, E.; Vianna, M. et al. Science of the Total Environment, jul. 2024. Cocaína em 13/13 Rhizoprionodon lalandii, Recreio dos Bandeirantes. Músculo ~23 µg/kg; fígado ~7 µg/kg.

13.  IOC/Fiocruz / Agência Brasil, 23/7/2024. Fiocruz encontra tubarões contaminados com cocaína no Rio de Janeiro.

14.  G1, 23/7/2024. Pesquisa inédita encontra cocaína em tubarões no Rio de Janeiro.

15.  BBC News Brasil, 23/7/2024. O que explica cocaína em tubarões no litoral do Brasil?

16.  Marine Pollution Bulletin, 2026. Contaminantes de preocupação emergente em elasmobrânquios costeiros (Gymnura altavela, Sphyrna spp.), Recreio. Cocaína, benzoilecgonina, diclofenaco, sulfametoxazol, fipronil, piroxicam.

17.  CNN Brasil, 29/6/2026. Cocaína é encontrada em tubarões e raias na costa do Rio de Janeiro.

18.  Portaria GM/MS nº 888/2021 (potabilidade). Urânio: 30 µg/L. Fármacos e cocaína: sem padrão.

19.  Resolução Conama nº 357/2005. Classificação de corpos de água.

20.  OMS. Guidelines for drinking-water quality. Urânio 30 µg/L.

Isabel Braga

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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