Como o patrocínio de apostas no futebol entra no cérebro da criança — e o que a lei brasileira já diz sobre isso

Isabel de Fátima Alvim Braga

A aposta de quota fixa é proibida para menor de 18 anos. Mesmo assim, muita criança brasileira cresce lendo o nome de uma casa de apostas no peito do ídolo, no intervalo do jogo e no feed do celular. Não é acaso. É o modo mais eficiente de tornar um produto adulto parte da paisagem afetiva.

Este texto junta três fios: a publicidade das bets no futebol, o fato de o logo chegar à camisa infantil, e o mecanismo pelo qual o cérebro — sobretudo o cérebro em formação — grava associação sob emoção forte. No centro desse mecanismo está a noradrenalina.

O time virou outdoor

Depois da Lei nº 14.790/2023, as casas de apostas passaram a pagar o que banco e cerveja já não cobriam sozinhos. O espaço mais caro do futebol brasileiro — o peito da camisa — virou vitrine.

Os números mudam no meio da temporada: contrato cai, outro entra, há patrocínio só para um jogo. O retrato útil é este. No começo de 2026, 12 dos 20 clubes da Série A tinham casa de apostas como patrocinadora máster. Em 2025 esse número chegou a 18. Outro levantamento do ciclo recente apontou 16 de 20 com bet no espaço principal; Grêmio e Internacional com banco estadual no peito, Bragantino com Red Bull e Mirassol com refrigerante. Mesmo nesses “sem bet no centro”, quase sempre sobra marca na manga, na calça ou no treino. No Brasileirão Feminino, 9 dos 18 times — metade — começaram 2026 com bet no peito.

A seleção brasileira, na Copa, não leva bet na camisa da CBF. Cerca de um em cada três convocados, porém, joga no clube com bet no peito. Para o clube, é receita. Para a bet, é legitimidade: se está na camisa do time, “não pode ser tão ruim”.

As camisas infantis têm logo de bet?

Sim. Camisa infantil de clube brasileiro já saiu de loja com logo de casa de apostas. Não é hipótese.

A Defensoria Pública de Minas Gerais tomou conhecimento do uso de nomes de empresas de apostas em uniformes de crianças e adolescentes ligados a times de Belo Horizonte e recomendou que os clubes se abstivessem de comercializar camisetas e artigos infantojuvenis com essa logomarca, recolhessem o que já estava no mercado e adequassem a produção. O mesmo ofício pediu que, nos jogos de categorias de base com atletas menores de 18 anos, não houvesse propaganda de apostas.

O Ministério da Fazenda, por sua vez, instaurou fiscalizações que incluem a exibição de logos de bets em uniformes esportivos infantis. Só no tema da proteção de crianças e adolescentes foram dezenas de processos — a maior parte sobre oferta de apostas em campeonatos de base, além de cadastro de menores e os dois casos de logo em uniforme de criança.

A lei já veda propaganda dirigida a menor. A camisa do manto, porém, entra em casa como “produto do time”, não como anúncio. Essa é a brecha prática.

Por que a criança entra nessa conta

Ninguém precisa contratar uma criança de seis anos para o recado chegar nela. O recado já chega de três jeitos.

  • Camisa, estádio e TV. O menino veste o manto, vê o ídolo e lê o nome da bet sem entender o produto.
  • Rede social. Pesquisa TIC Kids Online: 53% das crianças e adolescentes disseram ter visto divulgação de apostas na internet; o canal principal são as redes. A faixa de 15 a 17 anos é a mais exposta.
  • Influenciador mirim. Há casos documentados de perfis infantis divulgando cassino online. Isso não é legal. A Fazenda derrubou centenas de perfis por propaganda irregular; parte era de plataforma clandestina.

Resumo seco: a criança não “escolheu” anunciar bet. O ecossistema colocou a marca no que ela já ama — time, ídolo, vídeo curto — e, no pior caso, pagou perfil infantil para empurrar o produto.

O cérebro infantil associa, não debate

Criança aprende por associação. Dois estímulos repetidos juntos viram um só pacote na memória: time + cor + hino + ídolo + o que está no peito.

Estudos de patrocínio esportivo com crianças de 5 a 12 anos mostram isso sem perguntar “quem patrocina?”. Numa tarefa em que elas só encaixavam ímãs de times e marcas, cerca de três em cada quatro ligaram pelo menos um patrocinador ao time certo. Quanto mais velha (9 a 12 anos), mais acerta. Elas também agrupam por tipo de produto: “isso é coisa de cerveja, de aposta, de fast-food do meu esporte”. Não é aula. É rede de memória.

Em linguagem simples: o logo não precisa ser entendido. Precisa ser visto no mesmo quadro emocional que o time.

Noradrenalina: o carimbo da memória

Quando algo importa de verdade — gol, pênalti, ídolo de joelhos — o corpo solta noradrenalina (norepinefrina). Ela sai principalmente do locus coeruleus e banha a amígdala e o hipocampo.

A ciência, de forma estável, mostra o seguinte. Experiência com emoção forte é melhor gravada do que a neutra. A amígdala, ativada por noradrenalina nos receptores beta-adrenérgicos, avisa o resto do cérebro: “isso vale guardar”. Bloquear esse caminho — por exemplo com propranolol — reduz a vantagem da memória emocional. Aumentar noradrenalina na amígdala, em experimentos clássicos, fortalece a consolidação.

Tradução leiga: a noradrenalina não inventa a memória. Ela seleciona o que entra no arquivo de longo prazo e com mais nitidez. O detalhe que estava no campo na hora do gol — a camisa, o canto, o logo no peito — viaja junto.

Há um efeito colateral conhecido: o cérebro privilegia o centro emocional e pode enfraquecer o que veio logo antes. Por isso a gente lembra o gol e esquece o comercial “comum”. O que estava colado no gol, porém, sobe com ele.

O futebol entrega exatamente esse coquetel

O futebol não é um outdoor parado. É uma máquina de alerta emocional: surpresa e incerteza; identidade (“somos nós”); ritual (a mesma camisa todo domingo); repetição (rodadas, base, YouTube, loja); e corpo (grito, salto, choro — o sistema nervoso simpático dispara).

Nesse estado, o cérebro entra em modo de aprendizado aberto. Patrocínio no pico emocional deixa de ser “anúncio” e vira parte da cena. A marca não pede para ser avaliada. Ela é associativa: time amado + emoção alta + logo no mesmo quadro.

Na criança isso é mais forte por três motivos. O córtex que freia impulso e lê “isso é propaganda” ainda está em construção. O ídolo é figura de apego, não celebridade distante. E a camisa infantil é vestida no corpo: memória também é sensorial — tecido, cheiro de campo, foto com o pai.

Por isso a camisa kids com bet não é um detalhe de merchandising. É o produto adulto costurado no objeto de afeto, no instante em que a noradrenalina está carimbando a cena.

Conflito de interesse, em linguagem comum

Conflito de interesse é quando quem deveria cuidar de uma coisa ganha dinheiro para empurrar outra.

O clube precisa de caixa. A bet paga salário, CT, dívida. Fica difícil o mesmo clube falar de jogo responsável com a mesma força com que estampa a marca. O jogador e o comentarista ganham para ser ídolo e analisar o jogo; se no mesmo bloco aparece “a melhor aposta é X”, o palpite vira vitrine. O influenciador ganha por clique; o seguidor menor não distingue publicidade de vida real. O torcedor pensa, sem perceber: “se eu apostar, ajudo o meu time”. Não ajuda. Ajuda a casa.

Ninguém precisa ser vilão para o conflito existir. Basta o dinheiro e a camisa estarem no mesmo lugar.

A lei para quem não é advogado

Pense em três camadas.

A lei grande — Lei nº 14.790/2023, a Lei das Bets — diz que aposta é para maior de 18. Propaganda tem de ser para adulto. Não pode mentir sobre chance de ganho nem vender aposta como renda ou investimento. A regulamentação cabe ao Ministério da Fazenda; a autorregulação do Conar é incentivada, mas não substitui a norma estatal.

As portarias de julho de 2026 apertaram o que vale na prática. Toda propaganda de bet autorizada precisa de um aviso grande, no estilo cigarro, ocupando no mínimo 10% da peça: “Apostar pode causar dependência”; “Apostar faz você perder dinheiro”; ou “Aposta não é investimento”. Também é proibido ganho fácil, urgência, histórico de prêmio como isca, “dica de especialista” para induzir aposta, e qualquer peça dirigida a criança ou adolescente. Quem veicula — TV, rede, influenciador — tem de checar se a casa está na lista oficial da Secretaria de Prêmios e Apostas.

Criança na frente da câmera: participar de propaganda de aposta, mesmo como figurante, é irregular. O Conselho Nacional de Justiça deixou explícito que conteúdo infantil monetizado não pode promover aposta ou jogo de azar. Pais que transformam o perfil do filho em anúncio contínuo passam a precisar de alvará — e aposta continua fora.

Punição para casa autorizada que furar a regra: multa de até 20% do faturamento, suspensão e até perda da licença. Para anúncio de bet ilegal, o governo derruba perfil. Há um projeto no Senado — o PL 2.470/2026 — que quer ir além: banir propaganda em TV, rede, streaming e patrocínio de clube. Ainda não é lei.

O ponto

Criança não está fazendo carreira em bet. Ela está no caminho da marca. O time precisa do dinheiro; a bet precisa do time; o algoritmo precisa de vídeo. No meio fica um produto que a lei reserva ao adulto, colado no ídolo de quem ainda não pode apostar.

Não é preciso uma criança “fazer propaganda” no TikTok para o dano associativo existir. Basta o gol, a noradrenalina e o logo no mesmo quadro. O futebol oferece o que o laboratório de memória emocional sempre descreveu: alerta, significado e repetição. A camisa infantil só torna o experimento doméstico.

A legislação já diz o óbvio: menor não é alvo. O que o país discute agora é se camisa, intervalo e influenciador continuam sendo um jeito elegante de furar essa cerca.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Setembro de 2026

Referências

[1]  Brasil. Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a modalidade lotérica denominada apostas de quota fixa. Diário Oficial da União.

[2]  Ministério da Fazenda. Portaria SPA/MF nº 1.231, de 31 de julho de 2024. Regras de jogo responsável e de publicidade das apostas de quota fixa.

[3]  Ministério da Fazenda. Portaria SPA/MF nº 1.964, de 10 de julho de 2026. Advertências obrigatórias em publicidade de apostas.

[4]  Ministério da Fazenda; SECOM; Ministério da Justiça e Segurança Pública. Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73, de 10 de julho de 2026. Proteção do consumidor na publicidade de apostas de quota fixa.

[5]  Agência Brasil. Publicadas regras que restringem publicidade de bets no país. 11 jul. 2026.

[6]  Ministério da Fazenda. Ministério da Fazenda amplia exigências de publicidade de apostas no país. 13 jul. 2026.

[7]  Senado Federal. CCT aprova restrições à publicidade e ao patrocínio de bets (PL 2.470/2026). 2 set. 2026.

[8]  Conar. Atualização do Anexo X do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária e Quadro de Autorregulação da Publicidade de Apostas. ago. 2026.

[9]  ISTOÉ Dinheiro. Brasileirão da Série A começa com 12 times patrocinados por bets. 25 jan. 2026.

[10]  Games Magazine Brasil. With Sportingbet joining Palmeiras, betting companies now sponsor all teams in the Brasileirão. 2025/2026.

[11]  iGaming Brazil. Casas de apostas estampam camisas de metade dos times do Brasileirão Feminino. 3 mar. 2026.

[12]  Agência Pública / Brasil de Fato. Seleção das bets: um a cada três convocados veste camisa com bet no patrocínio principal. 22 maio 2026.

[13]  Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais. Ofício sobre publicidade de apostas em uniformes infantojuvenis (América Futebol Clube e correlatos). 2024/2025.

[14]  Folha de S.Paulo. Fazenda derruba 937 perfis de influencers por anúncio irregular de bets e acha logo em uniforme infantil. 29 jul. 2026.

[15]  Cetic.br / NIC.br. TIC Kids Online Brasil. 53% das crianças e adolescentes viram propaganda de bets na internet. 2025.

[16]  Folha de S.Paulo. CNJ regulamenta trabalho de crianças em redes sociais e exige alvará para posts recorrentes. 23 jun. 2026.

[17]  Bestman, S. et al. Game on: do children absorb sports sponsorship messages? Public Health Nutrition. Crianças de 5 a 12 anos associam patrocinador ao time sem prompt explícito.

[18]  Bestman, S. et al. Children’s implicit recall of junk food, alcohol and gambling sponsorship in Australian sport. BMC Public Health.

[19]  McGaugh, J. L.; Roozendaal, B. Role of norepinephrine and the basolateral amygdala in emotional modulation of memory consolidation. Revisão clássica.

[20]  Atucha, E. et al. Noradrenergic activation of the basolateral amygdala maintains hippocampus-dependent accuracy of remote memory. PNAS, 2017.

[21]  Strange, B. A.; Hurlemann, R.; Dolan, R. J. An emotion-induced retrograde amnesia in humans is amygdala- and β-adrenergic-dependent.

[22]  Roozendaal, B.; McGaugh, J. L. Emotional modulation of learning and memory: pharmacological implications.

[23]  Tully, K.; Bolshakov, V. Y. Emotional enhancement of memory: how norepinephrine enables synaptic plasticity.

[24]  Mao, L. L.; Zhang, J. J.; Connaughton, D. P. An associative learning account of branding effects of sport sponsorship.

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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