Isabel de Fátima Alvim Braga

A pergunta pública é sempre binária: a favor ou contra o macaco no laboratório. É a pergunta de quem não vai pagar a conta. A pergunta que presta tem três cláusulas. Qual pergunta biológica aquele corpo responde. Qual dano ele compra. E se o número que sai dali atravessa a rua e chega ao doente. Sem as três, o jaleco é liturgia.
O número que a indústria não coloca no folder
Em 2024, PLOS Biology rastreou intervenções terapêuticas que primeiro apareceram em animal. Cerca de 5% chegaram a registro regulatório no humano. A concordância animal–humano, nas meta-análises, oscila de quase zero a cem por cento: não é previsível a priori.[13]
Em AVC, cerca de 69% dos estudos em animal dão “positivo”; cerca de 6% dos fase 3 em gente dão. O poder médio do experimento animal, nessa série, foi 17%.[15] Alzheimer, 2002–2012: taxa de sucesso de fármaco doença-modificador na casa de 0,4%, com modelo de amiloide que “funciona” no rato e some no paciente.[16] Pound e colegas reabriram seis classes já revistas. Menos de 7% dos estudos pré-clínicos passariam no cubo de Bateson — benefício humano real vezes rigor vezes dano ao animal. Analgesia mal relatada. Um terço dos bichos mortos antes do endpoint.[14] Freedman estimou que a maior parte da pré-clínica biomédica não se reproduz.[17]
Isso não prova que todo animal é inútil. Prova que a maior parte do uso é pesca de sinal, não ponte. O ensaio clínico existe precisamente porque o animal não prevê o bastante.
Onde o modelo mente de propósito
O modelo não “erra”. O modelo é construído para dar o sinal que o protocolo pediu. O animal é jovem, isogênico, macho, desafiado no horário zero, sem hipertensão, sem tabaco, sem três anti-hipertensivos. O desfecho é volume de infarto ou tempo no labirinto. No hospital o desfecho é morte, cadeira de rodas, Mini-Mental. Traduzir um no outro é um ato de fé com planilha.
Há mentiras estruturais, não acidentes. Em sepse, o camundongo aguenta carga bacteriana que mata gente — e o fármaco que o salva não salva o paciente. Em AVC, o tempo porta-agulha do animal é minutos; o do humano é horas. Em Alzheimer, o rato carrega uma transgene que o humano não tem. Em toxicologia de rotina, o macaco entra porque o dossiê da agência pede segunda espécie, não porque aquela molécula precise de córtex pré-frontal. Quem desenha o experimento sabe disso. Por isso o viés de publicação é tão alto: o negativo não viaja, o positivo inchado viaja.
A frase mais honesta do campo saiu da boca de quem financiava vacina de HIV. Depois que o ensaio STEP da Merck quebrou, Peggy Johnston, então na NIAID, disse em Seattle: “Camundongos mentem, macacos às vezes mentem, humanos nunca mentem. Alguns macacos mentiram desta vez.”
A vacina de HIV que o macaco aprovou e a gente não teve
Durante vinte anos o rhesus foi o cartaz da vacina de HIV. O vírus símio (SIV) e o quimera SHIV infectam o macaco. Dá para medir carga, CD4, mucosa retal. Dá para publicar “proteção”. O que não deu foi produto.[24]
O caso didático é o STEP, a vacina adenovírus 5 da Merck. No macaco desafiado com SHIV89.6P — uma cepa “fraca”, o próprio campo admitiu depois — o imunizante não impedia a infecção, mas derrubava carga viral e preservava CD4. Foi isso que justificou o fase 2b em três mil voluntários. No humano, não impediu infecção e não derrubou carga. Houve mais infecções no braço da vacina do que no placebo; a diferença não fechou significância, mas o ensaio parou.[25][26] Watkins e colegas, na Nature Medicine de 2008, foram secos: o modelo SHIV não previu o STEP. O modelo SIV, mais duro, já tinha previsto o fracasso — e foi preterido.[24]
RV144, na Tailândia, foi o único lampejo: eficácia marginal de cerca de 31%, sem efeito na carga de quem se infectou.[28] HVTN 702 tentou repetir a lógica na África do Sul com outro adjuvante e outra subtipo. Interrompido em 2020: 129 infecções no vacinado, 123 no placebo.[27] HVTN 705, o mosaico Ad26 da Johnson, também não significou.[29] Construtos SOSIP que “abriam” anticorpo autólogo em coelho e macaco chegaram ao humano com amplitude limitada.[30]
O macaco ensinou reservatório, envelope, bNAb. Ensinou biologia. Não ensinou vacina. Quem ainda chama esse capítulo de “padrão-ouro” está vendendo o criatório, não o resultado.
A prateleira curta — e o slogan
A lista da National Academies / NCBI (2023) é honesta porque é curta. Pólio. Sarampo. Ebola (Ervebo, Inmazeb, Ebanga). Parte da segurança de vacinas de COVID e Zika. Estimulação profunda no Parkinson. Anticorpo que segura rejeição de enxerto. Tratamento de falciforme e de HIV como doença, não como vacina. Em cada um desses casos, diz o relatório, o primata entrou porque não se fazia no humano por ética ou logística, o in vitro não fechava o sistema e o roedor não tinha a anatomia.[18] Fora dessa prateleira, o argumento “primata é o gold standard” vira slogan.
Quantos macacos. Quanto custa
Nos Estados Unidos, o relatório USDA do ano fiscal 2021 — o que a NAS usa — mostrou pouco mais de 70 mil primatas não humanos em uso ativo, número parecido com 2008. Não é “escassez existencial”. É estoque.[19] No FY2024 as instalações reportaram 104.808 primatas no total: 44.375 só retidos, sem protocolo; 1.232 usados em procedimento com dor que o laboratório declarou não poder aliviar.[19] Quase 71% dos awards NIH que declaram espécie usam rhesus. No FY2021 os EUA importaram 31.844 primatas; 30.649 — 96% — eram macaco-cinomolgo.[20]
O preço denuncia o mercado. Antes de 2020, um cinomolgo de laboratório saía por 4 a 7 mil dólares. Com o embargo chinês na pandemia, foi a 20 mil. Em 2022–23, analistas da Evercore e a imprensa de negócio citaram picos de 55 a 60 mil dólares por cabeça. Houve “futuro” de feto asiático.[21] No Camboja, o caçador recebia cerca de 175 dólares. O mesmo animal saía do país a mais de 6 mil. O Departamento de Justiça americano passou a tratar parte dessa corrente como silvestre vendido com papel de cativeiro.[22]
Chimpanzé, que os EUA já não usam em invasivo, ainda custa: o NIH gastou 10,99 milhões de dólares em 2024 para manter 343 animais — 87,78 dólares por cabeça por dia.[23] Macaco de protocolo não é barato. Colônia doente é caro duas vezes: perde o biomodelo e compra o risco zoonótico.
O que a imprensa americana documentou
Não é lenda de ativista. É FOIA, USDA e revista.
No NIMH, o laboratório de Elisabeth Murray — neurociência de “medo” e atribuição de emoção a formas animadas — teve os prontuários de 73 macacos abertos por ação de Lei de Acesso. Oitenta e cinco por cento com queda de pelo; 74% com pino de metal parafusado no crânio; 64% privados de água para “cooperar”; dentes lixados em mais da metade. Financiamento público na casa de dezenas de milhões.[34]
Na Louisiana, o New Iberia Research Center, da Universidade, chega a 12 mil macacos — o maior criatório universitário do país. Vídeo interno de 2026: gaiola, fezes acumuladas, lesão. Em janeiro de 2025, 19 rhesus morreram numa geada de 2 °F. A USDA autuou remessa interestadual a Charles River com atestado sanitário vencido, em temporada de tuberculose em primata de laboratório americano.[36]
A New Yorker recontou a Alpha Genesis, na Carolina do Sul, e a ilha de Morgan: dezenas de fugas em uma década; mais de 120 milhões de dólares em contrato federal desde 2008.[35] Covance, em Vienna, Virgínia, foi filmada em 2004–05: tubo nasal, tapa, macaco com braço quebrado quatro dias.[37] Em 2026 o NIH tirou a aprovação do Caucaseco, na Colômbia, depois que autoridades apreenderam mais de cem Aotus em gaiola enferrujada.[38] Num zoológico chinês, 84 rhesus com tuberculose humana; o teste de pele — o mesmo que muita colônia ainda usa como filtro único — deu negativo em todos.[39]
O padrão se repete. Teste frágil. Colônia aberta ao humano. Eutanásia no lugar de instalação. Silêncio quando o número aparece.
O que a lei pede e o que os autos já têm
No papel brasileiro não falta regra. Lei Arouca, Decreto 6.899, DBCA, 3Rs, RN 60 (par ou grupo, enriquecimento), RN 37 (eutanásia), RN 38 (sem animal em aula só demonstrativa).[1][2][3][4][5][6] Na Europa, primata só quando outra espécie não serve.[7] FELASA manda rastrear M. tuberculosis na chegada e ao menos uma vez ao ano. Bushmitz já avisava em 2009 que o tuberculínico mente. A WOAH quer Old Tuberculin palpebral em dose alta. O CDC, na importação, quer três testes negativos. O NIH testa de novo a cada semestre.[8][9][10][11][12]
Os autos do processo nº 5035958-79.2026.4.02.5101, na 20ª Vara Federal da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, já juntaram o desvio.[31] Surto de Mycobacterium tuberculosis na colônia de rhesus em 2011–2012, com “morte de um elevado número de animais”. Laboratório sem primer para o PCR de saliva. Kit sorológico descrito na reunião como condenado para rotina. Container sem nível de biossegurança para o animal doente. Ex-colaborador que começou tratamento de tuberculose e parou porque “havia melhorado”. Pauta: repercussão pública, “ainda não é o momento” de esclarecer, registrar visita por causa de processo.
O mesmo processo cobre 2020–2023. Manejo parado na pandemia. Em outubro de 2020, granuloma testicular, PCR e cultura positivos para o bacilo humano. Na colônia de manutenção de rhesus, 34 positivos ou suspeitos em 431 — 8%. Controle declarado: eutanásia de positivo, de suspeito e de contato de grupo, inclusive gestante com teste, PCR e radiografia alterados. O texto que está nos autos ainda pede apoio da presidência “para conter a doença”. Plantel de rhesus: da ordem de 550 em 2012, 484 em 2023, numa criação que já passou de 950 cabeças. Queda compatível com o “elevado número” de mortes.[31] Colônia com bacilo humano não produz dado limpo. Produz viés. Vervenne descreveu a janela em que o macaco ainda não tem granuloma e já espalha.[32]
Em junho de 2026 o mesmo agente fechou o Cetas do Ibama no Rio: três macacos-prego mortos, cerca de cinquenta testes em gente, um contato, nenhum doente. Outra instituição. O mesmo bacilo.[33]
Régua
Útil com primata se as quatro forem sim. A pergunta é de sistema e a espécie inferior falhou por escrito. O N é pequeno e a estatística foi pré-registrada. A biossegurança é real, não um container. O desfecho no animal é o desfecho que se medirá no doente.
Útil em rato, peixe, organoide, chip e, quando ético, em desafio humano: rastreio, dose, mecanismo, toxicidade de classe conhecida. Método alternativo que o CONCEA reconhece tem prazo de até cinco anos para virar obrigação.[40]
Inútil: repetir o modelo que já falhou na mesma doença; aula; banco de macacos sem protocolo; desfecho-labirinto vendido como sobrevida. Inútil, sobretudo, a colônia que adoece do bacilo do corredor e depois se apresenta como patrimônio da ciência.
A Arouca e o cubo de Bateson coincidem. Primata só depois que a substituição foi tentada de verdade — não depois que o criatório precisa justificar a folha. Os autos já juntaram cultura, reunião e eutanásia. Cabe ao leitor decidir se isso ainda se chama pesquisa ou se já se chama estoque.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Referências
1. BRASIL. Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008 (Lei Arouca).
2. BRASIL. Decreto nº 6.899, de 15 de julho de 2009.
3. CONCEA. Resolução Normativa nº 12/2013 (DBCA).
4. CONCEA. Resolução Normativa nº 60, de 2 de maio de 2023 (primatas não humanos).
5. CONCEA. Resolução Normativa nº 37 (eutanásia); RN nº 38/2018 (ensino).
6. RUSSELL, W. M. S.; BURCH, R. L. The Principles of Humane Experimental Technique. 1959.
7. UNIÃO EUROPEIA. Diretiva 2010/63/UE, art. 8º.
8. BALANSARD, I. et al. FELASA Working Group Report, Laboratory Animals, 2019.
9. BUSHMITZ, M. et al. J. Medical Primatology, 2009.
10. WOAH. Manual — tuberculose em primatas; Old Tuberculin palpebral.
11. CDC. 42 CFR § 71.53.
12. NIH/OACU. D3-NHP-TB; ILAR Guide.
13. VAN DER NAALD, M. et al. PLOS Biology, 2024. Translação animal–humano ≈ 5% até registro.
14. POUND, P. et al. PLOS ONE, 2018. Cubo de Bateson: <7% permissíveis.
15. SCHMIDT-POGODA, A. et al. Annals of Neurology, 2020. AVC: 69% positivo no animal, 6% no fase 3; poder 17%.
16. CUMMINGS, J. et al. Alzheimer’s Research & Therapy, 2014. Sucesso 0,4% (2002–2012).
17. FREEDMAN, L. P. et al. PLOS Biology, 2015. Reprodutibilidade pré-clínica.
18. NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES. Nonhuman Primate Models in Biomedical Research. Washington: NAP/NCBI Bookshelf, 2023.
19. USDA/APHIS. Relatórios anuais Animal Welfare Act. FY2021: ~70 mil PNH em uso; FY2024: 104.808 PNH em instalações (44.375 só retidos; 1.232 em dor não aliviada).
20. NAS/NCBI. Cap. landscape: 31.844 PNH importados no FY2021, 30.649 (96%) Macaca fascicularis; rhesus é 71% dos awards NIH com PNH.
21. NIKKEI ASIA; EVERCORE ISI; FORTUNE. Preço do macaco de laboratório: US$ 4–7 mil pré-2020; US$ 20 mil na escassez; picos de US$ 55–60 mil em 2022–23.
22. RFA / dados ONU comércio. Camboja 2019: 14.931 primatas, média ~US$ 2.271 na exportação; poacher local ~US$ 175; exportação posterior ~US$ 6.660.
23. NIH ORIP. Chimpanzee Management Report, 1º out. 2024: 343 chimpanzés, US$ 10,99 milhões/ano, US$ 87,78/animal/dia.
24. WATKINS, D. I. et al. Nature Medicine, 2008. “Nonhuman primate models and the failure of the Merck HIV-1 vaccine in humans.”
25. COHEN, J. Science, 2007. STEP/Merck; Peggy Johnston (NIAID): “Mice lie, monkeys sometimes lie, and humans never lie.”
26. MERCK / HVTN. STEP (HVTN 502): vacinação interrompida; infecções no braço vacina ≥ placebo.
27. HVTN 702 (África do Sul, 2020). Interrompido: 129 infecções na vacina vs. 123 no placebo. Não reproduziu RV144.
28. RV144 (Tailândia). Eficácia marginal ≈ 31%; sem efeito em carga viral (RV152).
29. HVTN 705 / HPX2008 (Ad26 mosaico + gp140). Resultado não significativo.
30. SANDERS, R. W.; MOORE, J. P. et al. BG505 SOSIP em coelho e macaco: anticorpo autólogo, amplitude limitada no humano.
31. Processo nº 5035958-79.2026.4.02.5101, 20ª Vara Federal da SJ/RJ. Autos: surto 2011/12; 34/431 (8%) em 2020–21; cultura M. tuberculosis; eutanásia de contato e gestante; ausência de NB3; ex-colaborador com tratamento interrompido.
32. VERVENNE, R. A. et al. Patogênese da TB em PNH — janela pré-clínica de disseminação.
33. NUNES, M. O Globo, 26 jun. 2026. Cetas-RJ/Ibama: três macacos-prego mortos por TB.
34. PETA / FOIA. Laboratório Elisabeth Murray, NIMH/NIH: 73 macacos; 85% alopecia; 74% com headpost; 64% privação de água. Financiamento público na casa de dezenas de milhões de dólares.
35. NEW YORKER, 2025. Alpha Genesis / Morgan Island: dezenas de fugas; contratos NIH > US$ 120 milhões desde 2008.
36. PETA / USDA, 2025–2026. New Iberia Research Center (Univ. Louisiana): ~12 mil macacos; 19 rhesus mortos em geada (jan. 2025); remessa a Charles River com atestado sanitário vencido.
37. SOURCEWATCH / PETA. Covance, Vienna/VA, 2004–05: investigação encoberta — contenção, tubo nasal, fratura sem tratamento.
38. SCIENCE / STAT, 2026. NIH retira aprovação do Caucaseco Scientific Research Center (Colômbia) após apreensão de Aotus.
39. GONG et al. Surto de M. tuberculosis em 84 rhesus de zoológico na China; TST negativo em todos.
40. CONCEA. Método alternativo validado: prazo de até cinco anos para substituição obrigatória.