Isabel de Fátima Alvim Braga

Em 2025, primeiro ano cheio do mercado regulado, o GGR das bets — apostas menos prêmios — foi de R$ 36,96 bilhões [1]. Desses, 12% viraram destinação legal: R$ 4,53 bilhões [1][2]. Esporte ficou com R$ 1,63 bi; turismo, R$ 1,27 bi; segurança, R$ 614 mi; educação, R$ 460 mi; seguridade, R$ 454 mi; saúde para dano do jogo, R$ 45,8 mi [2]. A Receita, somando também IRPJ, PIS e Cofins, fala em quase R$ 10 bilhões de tributo setorial no ano [3]. São números grandes no discurso fiscal. No PIB, são outra escala.
Do lado do PIB
O IBGE fechou 2025 com PIB de R$ 12,7 trilhões e crescimento de 2,3%. O consumo das famílias foi R$ 8,1 trilhões; o da agropecuária, R$ 775 bilhões [4]. Sobre essa régua:
O GGR de R$ 36,96 bi equivale a 0,29% do PIB — menos de um terço de um ponto percentual da economia [1][4]. A saída líquida das famílias, R$ 62,5 bilhões (o que apostaram menos o que receberam de volta, pelo Comsefaz/BC), é 0,49% do PIB e 0,77% do consumo das famílias [5][4]. O estudo de Guilherme Klein (UFRJ), ao aplicar multiplicador de demanda, estima que as apostas retiraram R$ 120 a 141 bilhões da atividade — 0,9% a 1,1% do PIB, algo como 40% a 50% de todo o crescimento de 2025 [6]. Em linguagem de supermercado: o GGR do setor legal é da ordem de 4,8% do valor adicionado da agropecuária no ano [1][4]. A perda líquida das famílias (R$ 62,5 bi) cabe 8 vezes no PIB de Sergipe e supera o de quatro Estados pequenos somados, como já apontou o Estadão [5]. A destinação social de R$ 4,53 bi é 0,036% do PIB — 12 centavos em cada R$ 1.000 produzidos no país.
| Grandeza 2025 | R$ bilhões | % do PIB (R$ 12,7 tri) |
| PIB (IBGE) | 12.700 | 100 |
| Consumo das famílias | 8.100 | 63,8 |
| GGR bets (SPA) | 37,0 | 0,29 |
| Saída líquida das famílias (Comsefaz) | 62,5 | 0,49 |
| Efeito-atividade estimado (UFRJ) | 120–141 | 0,9–1,1 |
| Destinação legal 12% do GGR | 4,53 | 0,036 |
| Tributos totais do setor (Receita) | 9,95 | 0,078 |
Tabela 1. Escala: o imposto das bets é visível no Tesouro e quase invisível no PIB; a perda das famílias é o contrário.
Do lado da comida
A Pesquisa Nacional da Cesta Básica (DIEESE/Conab) mede o custo da alimentação de um adulto, não da família. Em setembro de 2025, a cesta mais cara estava em São Paulo a R$ 842 [7]. Em junho de 2026 já passava de R$ 965 na mesma capital; em julho recuou a R$ 915 [8][9]. Tome-se R$ 800 como âncora conservadora do adulto no ciclo 2025–2026, no meio da distribuição das capitais.
R$ 62,5 bilhões de perda líquida em 2025 compram cerca de 78 milhões de cestas mensais de um adulto — ou 6,5 milhões de cestas o ano inteiro. Dividido pelos 25,25 milhões de CPFs que apostaram no mercado regulado [1], a perda média é R$ 2.474 por apostador no ano, R$ 206 por mês. Isso é um quarto de uma cesta adulta de R$ 800, todo mês, na média. Não é a conta de quem deposita R$ 20 no domingo. É a média puxada por quem perde muito.
O gasto mensal das famílias com apostas, na série da CNC, foi de R$ 4 bilhões em janeiro de 2023 para R$ 29 bilhões em dezembro de 2025 [10]. Uma cesta de R$ 800 em 36,25 milhões de “cestas-mês” equivaleria a esse pico de dezembro. A CNC associa cada R$ 1 bi nas bets a 0,7% a menos no faturamento do varejo [10]. Relatos de apostadoras: 4,3% disseram ter deixado de comprar comida; 8,1% deixaram de pagar conta [11]. Não é a maioria. É a ponta em que o hábito já come o essencial.
Quem sente mais: volume versus ferida
Há dois mapas, e eles não coincidem.
Mapa 1 — quem aparece na base. Pesquisa estilo Globo/observatório: classe C é a maior fatia dos apostadores (45%), classe B 27%; A e D/E menores [12]. Quase metade declara renda entre R$ 1.519 e R$ 4.524; 63% dizem gastar até R$ 100 por mês [12]. White paper da Legitimuz sobre a base verificada: renda presumida média R$ 2.500; 75% nas classes D e E; 73% entre R$ 1.500 e R$ 3.000; score de crédito perto de 300 [13]. No DF, 32,5% dos apostadores estão em renda média-baixa e 28,4% em renda baixa [14].
Mapa 2 — quem gera a receita da casa. A própria Legitimuz separa: D e E geram volume de contas; os grandes depósitos — e portanto mais GGR — estão em A e B [13]. Anbima descreve quatro perfis: mulheres C/D/E no “Adepto da Fortuna” e no “Matador de Leões” (esta última aposta para fechar a conta de luz); homens A/B no hobby e no “expert” que trata bet como investimento. Dos 28,3 milhões que apostaram no recorte Anbima, 4,5 milhões acreditam que bet é investimento [15].
A classe mais numerosa na fila do aplicativo é C/D. A classe mais ferida, em proporção da renda, é a mesma: quem ganha R$ 2.500 e perde R$ 206 no mês médio (ou bem mais no percentil alto) está tirando da cesta, não do fundo multimercado. A classe A/B perde mais reais e menos vida. É o padrão de bem com dependência: o dano social concentra-se onde a renda é inelástica — aluguel, feira, passagem.
Klein usa exatamente isso no multiplicador: família de renda baixa consome quase tudo o que entra; cada real que vaza para a bet some duas vezes — uma na mesa, outra no comércio do bairro [6]. Por isso o efeito-PIB (R$ 120–141 bi) é maior que a perda líquida contábil (R$ 62,5 bi). O varejo sente o segundo número; o PIB, o primeiro.
O que os R$ 4,53 bi não compensam sozinhos
A destinação legal é política pública real: R$ 1,63 bi no esporte, R$ 460 mi na educação, R$ 45,8 mi na saúde do jogador [2]. Comparada à perda das famílias, a saúde do jogo ficou com 0,07% daquele R$ 62,5 bi. A educação ficou com 0,7%. O esporte, o maior beneficiário, levou 2,6% do que as famílias perderam — e parte disso volta como camisa com logo da própria bet.
A outorga de R$ 30 milhões por cinco anos é pedágio de entrada, não destinação anual [16]. O Imposto Seletivo a partir de 2027 pode somar outra camada, estimada na casa dos R$ 6 bi se a alíquota andar perto de 15% [17]. Nada disso altera o mecanismo de 2025: o real sai primeiro do Pix da família e só depois vira GGR, imposto e carimbo.
Como ler sem misturar
Três frases cabem juntas. O setor legal é relevante para o Tesouro (~R$ 10 bi). É pequeno no PIB (0,3% de GGR). É grande no orçamento de quem ganha até três salários. A comparação honesta da destinação de R$ 4,53 bi não é com o orçamento da União; é com as 78 milhões de cestas adultas que a perda líquida compraria, e com o fato de a ponta mais pobre da base ser, ao mesmo tempo, a mais numerosa e a menos capaz de absorver o R$ 206 médio — ou o depósito que não é médio.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Setembro de 2026
Referências
[1] Secretaria de Prêmios e Apostas / Ministério da Fazenda. Relatório periódico do mercado regulado, acumulado 1º jan.–30 dez. 2025. GGR R$ 36.959.783.379,70; destinações R$ 4.532.797.794,92; 25.245.319 CPFs únicos.
[2] SPA/MF, decomposição das destinações 2025 (reprodução em estudos de mercado): Esporte R$ 1.625.543.103; Turismo R$ 1.267.510.862; Segurança R$ 614.368.595; Educação R$ 459.542.800; Seguridade R$ 454.435.647; Saúde R$ 45.751.662; Funapol R$ 25.116.850; sociedade civil R$ 22.423.906; ABDI R$ 18.104.369.
[3] Receita Federal. Arrecadação setorial 2025 cerca de R$ 9,95 bilhões; jan.–jul./2026 R$ 8,7 bilhões.
[4] IBGE. PIB cresce 2,3% em 2025 e fecha o ano em R$ 12,7 trilhões. Consumo das famílias R$ 8,1 tri; agropecuária R$ 775,3 bi; PIB per capita R$ 59.687. 3 mar. 2026.
[5] Comsefaz / Estadão / G1. Saída líquida das famílias para bets: R$ 62,5 bilhões em 2025 (0,68% da renda disponível). Volume Pix projetado ~R$ 351 bi.
[6] Klein, G. (UFRJ). Estimativa de perda de atividade de R$ 120 a 141 bilhões em 2025 (0,9%–1,1% do PIB). BBC Brasil, 24 ago. 2026.
[7] DIEESE/Conab. Pesquisa Nacional da Cesta Básica. São Paulo, set. 2025: R$ 842,26.
[8] DIEESE/Conab. Cesta básica, jun. 2026. São Paulo: R$ 965,47 (64% do salário mínimo líquido).
[9] DIEESE/Conab. Cesta básica, jul. 2026. São Paulo: R$ 915,01.
[10] CNC / VEJA. Cada R$ 1 bi em bets associado a −0,7% no varejo; gasto mensal das famílias de R$ 4 bi (jan./2023) a R$ 29 bi (dez./2025).
[11] Correio Braziliense. Mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais; 4,3% deixaram de comprar comida; 8,1% deixaram conta.
[12] Observatório do Jogo / pesquisa Globo BETS 2025. Classe C 45%; B 27%; renda R$ 1.519–4.524 para 46%; até R$ 100/mês para 63%.
[13] Legitimuz. White paper da base verificada (~25 mi). Renda média R$ 2.500; 75% classes D/E; grandes depósitos em A/B. BNL Data, 18 maio 2026.
[14] IPE/DF. Perfil de apostadores no Distrito Federal, 2025. Renda média-baixa 32,5%; baixa 28,4%.
[15] Anbima / Valor. Quatro perfis de apostador; 4,5 milhões encaram bet como investimento. 31 ago. 2026.
[16] Lei nº 14.790/2023 e regulamento SPA. Outorga de R$ 30 milhões / 5 anos, até 3 marcas.
[17] VEJA, 3 set. 2026. Leitura do Imposto Seletivo no Orçamento: fatia de apostas perto de 15% e cerca de R$ 6 bi.