Gestante, agrotóxico e território: o risco que a safra não medeIsabel de Fátima Alvim BragaA gestante do interior não precisa morar dentro do canavial para estar exposta. Basta o vento, o rio, o poço, o alimento da feira, o trabalho de quem volta com a roupa da lavoura. O primeiro trimestre — quando o embrião se organiza e o aborto precoce quase não entra na estatística — é a janela mais silenciosa e a mais crítica.

Em 2022 defendi, na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz, a tese que correlaciona o uso de agrotóxicos no estado de São Paulo a desfechos obstétricos fetais. Era um estudo ecológico: comparei territórios, não prontuários individuais. O método tem limite. Não autoriza dizer que este produto abortou esta gravidez. Autoriza outra frase, mais incômoda: onde a produção agrícola é mais intensa, as taxas de aborto precoce e de malformação fetal são mais altas — e os princípios ativos que o Brasil mais vende são, em vários casos, os mesmos que a toxicologia reprodutiva já observa com reserva.

Risco, aqui, não é pânico. É probabilidade com três camadas. A primeira é a exposição. Em 2024, segundo o Ibama, o Brasil comercializou 907,6 mil toneladas de ingrediente ativo de agrotóxicos químicos e bioquímicos. São Paulo comercializou 115,4 mil. Em 2000, o país vendia 162 mil toneladas; o estado, 42 mil. Em vinte e quatro anos, o volume nacional cresceu 459%. A área plantada cresceu bem menos. Sobrou intensidade por hectare.

A segunda camada é o perigo do composto. Vários dos mais vendidos são desreguladores endócrinos suspeitos ou confirmados, têm alerta reprodutivo em modelo animal ou já foram banidos na União Europeia por risco à saúde ou ao ambiente. A terceira é o desfecho populacional. No recorte paulista da tese, regiões de alta produção agrícola tiveram taxa de óbito fetal em menores de 500 gramas até onze vezes a de uma região litorânea de baixa produção. Aborto com menos de 22 semanas e malformação caminharam no mesmo sentido.

A gestante é especialmente vulnerável porque o feto não metaboliza como o adulto, a barreira placentária não é muralha e o calendário do desenvolvimento não espera o laudo da Anvisa. Organogênese, fechamento do tubo neural, formação de membros e do aparelho urogenital acontecem cedo. Se há exposição contínua no território, o risco não é teórico.O ranking nacional muda pouco. Muda o volume. No boletim do Ibama de 2024, o glifosato e seus sais seguiram em primeiro lugar, com 231,9 mil toneladas, apesar da queda em relação a 2023. O mancozebe subiu de 52,3 mil para 75,1 mil toneladas e assumiu o segundo posto. Na sequência vieram 2,4-D e acefato. O glufosinato avançou.

O cletodim entrou no grupo dos dez.Em São Paulo, no período da tese, de 2009 a 2018, a ordem que extraí dos relatórios do Ibama foi outra fatia do mesmo pacote: glifosato, com 160,6 mil toneladas no acumulado, cerca de 24% do volume estadual analisado; depois enxofre, óleo mineral, 2,4-D e oxicloreto de cobre. No modelo de Poisson, as substâncias mais correlacionadas à taxa estadual de aborto precoce foram glifosato, enxofre, ametrina, oxicloreto de cobre e ácido dicloroacético.Cada um desses nomes tem uma razão clínica. O glifosato é o mais vendido do país e apareceu associado ao aborto precoce no modelo estadual; a classificação internacional do herbicida é controversa, mas a escala de uso no Brasil não é.

O mancozebe, fungicida em forte alta, metaboliza-se a etilenotioureia, com alerta tireoidiano e reprodutivo, e está proibido na União Europeia. O 2,4-D é herbicida de grande volume; em São Paulo, o quantitativo mais que triplicou entre 2009 e 2017. O acefato é organofosforado, age no sistema nervoso e foi banido na Europa em 2003; o risco ocupacional é alto para quem pulveriza e para quem lava a roupa do trabalho. Atrazina, S-metolacloro e clorotalonil repetem-se no grupo dos mais comercializados; a atrazina é desregulador endócrino clássico e o clorotalonil saiu da União Europeia por risco. Ametrina e oxicloreto de cobre pesam no mix paulista de cana e citros e entraram no modelo da tese.Seis dos dez mais vendidos no país, em anos recentes, não têm uso autorizado na União Europeia. Não é detalhe regulatório. É o mesmo composto recusado lá e aplicado aqui, muitas vezes ao lado de escola, de casa e de água de abastecimento.A série do Ibama mostra o que esse cardápio fez com o volume.

Em 2009, quando começa o recorte da tese, o Brasil vendia 307 mil toneladas de ingrediente ativo. Em 2018, último ano que analisei, 553 mil. Em 2022, 801 mil. Em 2023 houve recuo para 755 mil. Em 2024, recorde: 908 mil. São Paulo foi de 53 mil toneladas em 2009 para 82 mil em 2018 e 115 mil em 2024. Quem trata isso como modernização do campo precisa explicar por que o volume cresceu mais que a área. Intensidade de uso é exposição. Exposição contínua em território de gestantes é risco populacional, mesmo quando o estudo ainda não aponta o CPF da vítima.O que encontrei nas regiões paulistas, sem forçar a causalidade, foi isto. Compareí Ribeirão Preto e Itapetininga, de alta produção agrícola, com Santos e Caraguatatuba, de baixa produção. Usei óbito fetal em menores de 500 gramas, aborto com menos de 22 semanas e malformação em nascido vivo. Desde 1996, a taxa de óbito fetal precoce em Itapetininga foi 2,9 vezes a de Santos. Em Ribeirão Preto, 11,13 vezes. Em Itapetininga, a variação percentual anual média foi de 3,6% ao ano para malformação fetal e de 6,9% ao ano para esse óbito em menores de 500 gramas.

O abortamento cresceu no estado; a malformação, com menos intensidade, também. Em 2023, parte desse resultado saiu no Journal of Occupational and Environmental Medicine. A conclusão que assinei com os coautores continua a que levo para a clínica: áreas de maior uso esperado de agrotóxicos apresentam taxas mais altas de aborto precoce e de malformação do que áreas não agrícolas. Isso pede estudo individual com biomarcador. Enquanto o estudo não vem, a gestante do cinturão de cana e de citros não pode ficar sem orientação.

A exposição não começa no prato. A ocupacional é quem pulveriza, mistura calda, lava equipamento ou entra na lavoura no intervalo de reentrada. A paraocupacional é quem lava a roupa de quem aplicou, mora na sede da fazenda ou come o que sobrou da horta na beira do talhão. A ambiental é deriva de avião e de trator, poço e rio em bacia agrícola, poeira do solo tratado. A alimentar é resíduo em hortaliça, fruta e água. O Programa de Análise de Resíduos da Anvisa existe.

A conversa no pré-natal, quase não.O cartão da gestante pergunta idade, pressão, vacina e sorologia. Quase nunca pergunta: a senhora mora a quantos metros da lavoura? Tem pulverização aérea no município? Alguém da casa aplica veneno? A água é de poço? Essas quatro perguntas mudam o raciocínio clínico de um aborto de repetição e de uma malformação sem diagnóstico genético fechado.Não espero o estudo perfeito para agir no território. Risco populacional já justificou vigilância em chumbo, mercúrio e radiação.

Agrotóxico na gestação cabe no mesmo princípio de precaução. No consultório, mapear moradia, ocupação e água; orientar a não entrar em área recém-pulverizada; tratar a roupa de trabalho como material contaminado, não como roupa suja. Na vigilância, publicar todo ano, por município agrícola, a taxa de aborto precoce, de óbito fetal abaixo de 500 gramas e de malformação, cruzada com o volume do Ibama. O dado já existe. Falta juntar. Na regulação, o fato de um princípio ativo estar proibido na Europa por risco reprodutivo ou hormonal deveria, no mínimo, acender reavaliação prioritária aqui — não novo registro genérico.A safra mede saca por hectare. A gestação mede batimento, peso e se o feto chegou a nascer. Enquanto o país recorde de commodity for também recorde de ingrediente ativo, o risco da gestante do interior continuará subnotificado. Não porque seja pequeno. Porque cabe em estatística que quase ninguém lê.

Isabel de Fátima Alvim Braga. Médica. Doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente (ENSP/Fiocruz).

Tese: Desfechos obstétricos fetais e sua correlação com uso de agrotóxicos no estado de São Paulo: um estudo ecológico (2022).

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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