Isabel de Fátima Alvim Braga

Faixa no chão, calendário na parede, barco na enseada. Quem tem data na semana calcula o resto da vida.

Em 2016, cinco minutos de ônibus da casa onde nasceu, Rafaela Silva ganhou o ouro olímpico no Rio. Cidade de Deus. O pai a levou para o judô porque ela era encrenca de rua. Aos sete anos entrou no Instituto Reação, do medalhista Flávio Canto. O técnico Geraldo Bernardes olhou as duas irmãs e falou em seleção. Acreditaram que ele era maluco. Não era.

Vinícius Júnior nasceu em 2000 e cresceu no Porto do Rosa, São Gonçalo — casa simples, pipa, gude, rua. O pai o levou, com seis anos, para a escolinha do Flamengo no Mutuá, três quilômetros de casa. O técnico Cacau conta que o menino atropelava todo mundo. Depois veio o futsal do Canto do Rio, em Niterói, e a base do Flamengo. O CEP de origem não pediu licença para o Real Madrid.

Bia e Branca Feres, as gêmeas cariocas do nado artístico, passaram anos no fundo da piscina do Flamengo com pulmão no limite e coreografia de Olimpíada — Atenas no currículo da geração que veio antes, Pequim e Londres no radar da que veio com elas. A imprensa preferia o cabelo e o maiô. A prova pedia outra coisa: apneia, força de tronco, contar oito compassos debaixo d’água e ainda sorrir quando o juíz olhava. Esporte de mulher no Rio ainda é vendido como vitrine. No cloro, é decisão.

O pré-frontal que segura o impulso no tatame é o mesmo que segura a perna fora d’água mais três segundos. Beleza pode acompanhar. No caso delas, era evidente. Não é o que classifica. A capacidade de resistir na água, sim. Negar a beleza e o carisma das gêmeas é persistir na mentira da sociedade que finge igualdade onde nunca houve. Relegar atletas olímpicas a uma simples consequência da beleza é cometer o mesmo erro.

Esses casos não são milagre. São calendário: treino na terça, luta no sábado, faixa no ano que vem. Dormir cedo porque amanhã o clube treina. Aturar piscina no dia de tempo ruim. Abrir mão. No livro A Sociedade da Birra isso tem nome: endurance mental. Criança que ganha elogio por qualquer gracinha precisa sempre de um cookie. Quem espera o segundo marshmallow — e quem refaz a questão que errou — treina o mesmo músculo. A partir de um QI alto, o número deixa de separar. Separa a gana.

O Rio já faz isso. Quatro endereços

Instituto Reação. Flávio Canto entrou numa favela em 2000 e em 2003 virou ONG. Começou na Rocinha. Rafaela é o cartaz, mas o projeto é judô mais escola e emprego. Dezenas de milhares de alunos na conta da instituição ao longo de duas décadas, polos no Rio e fora.

Luta pela Paz. Complexo da Maré. Vinte e cinco anos em 2025. Boxe, jiu-jitsu, muay thai, capoeira — e aula, emprego, liderança. A ONG fala em mais de 25 mil jovens. Tem corrida só de mulher (Destemidas) e formação de professor para outras quadras.

Bola Pra Frente. Complexo do Muquiço, entre Deodoro, Guadalupe e Marechal Hermes. Fundado em 2000 pelo tetracampeão Jorginho no campo onde ele mesmo começou. Futebol no contraturno, leitura, robótica, vestibular. Atende da casa; o instituto fala em 500 no programa principal e um centro novo para mil.

Gol de Letra. Raí e Leonardo, Caju. Esporte e escola no porto. Em 2016 o projeto Sport4RIO juntou Gol de Letra, Reação, Bola Pra Frente e Luta pela Paz — o mapa do Rio já se conhecia.

No meio do caminho tem equipamento público que às vezes funciona. Vila Olímpica da Maré (Seu Amaro): mais de 30 modalidades, 1.400 vagas abertas em 2026, mais de 3 mil atendidos. Vila da Mangueira, do Instituto Mangueira do Futuro, ligado à escola de samba: atletismo, luta, piscina, peso, criança de meses até os 17. Vila do Alemão, reformada em 2025, mais de mil alunos e 28 modalidades. Projeto Grael, em Niterói: vela na água que o outro artigo desta revista já descreveu. Quadra de igreja e de batalhão completam o que o edital federal não cobre.

O Programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, tem o desenho certo e a execução manca. Em 2025 o Senado registrou dois municípios de fato rodando depois de um edital que chamou milhares. O Rio não pode esperar Brasília abrir o CAUC.

Por que isso muda tanto taxa de gravidez quanto atenção

Quem enxerga um depois trata o agora como custo. Isso é decisão, não moral e não “vontade”. Na frente da cabeça fica o córtex pré-frontal. Ele segura o impulso, compara o prazer de hoje com o plano de amanhã e escolhe. Ninguém acorda motivado todos os dias. Motivação é clima. Endurance é ir mesmo quando o clima está ruim.

Estudo de 2005 no Journal of Adolescent Health: a ideia do que um filho faz com plano, autoestima e namoro explicou mais da metade do desejo de não engravidar. Outro, de 2003: terminar a escola e pensar em faculdade prediziam evitar a gravidez. Em 2024, um programa de dez encontros sobre futuro mais que dobrou o uso de contraceptivo entre meninas que não usavam no começo (34% contra 12,9%). Esporte não é pílula. Esporte é data na parede — e data é o que o pré-frontal usa para não descontar o futuro a zero.

TDAH é, em parte, falha desse freio. A rede que liga o pré-frontal ao estriado — o circuito frontoestriatal — trabalha com dois recados químicos: dopamina e noradrenalina. Dopamina não é “hormônio do prazer”. Prazer é outra via, mais ligada a opioide e ao gostar do que já chegou. Dopamina é o recado do próximo passo: vale a pena começar, vale a pena continuar, vale a pena repetir o que ainda não deu gosto. Por isso o vício de tela pede cookie o tempo todo — o circuito do “e agora?” ficou viciado em novidade, não em obra. Por isso também ninguém “quer” lavar a louça. Decide. Faz o que tem que ser feito. No livro: criança pode tirar a louça da mesa sem estar motivada. Pode recolher o brinquedo. Endurance mental não é acordar empolgado. É executar a tarefa que a tela gostaria de adiar.

Quando a dopamina oscila ou a noradrenalina não segura o alerta, o agora grita e o depois some. O exercício entra por quatro portas.

Primeiro, sangue. O músculo trabalha, o coração empurra mais volume, o crânio recebe mais perfusão no próprio pré-frontal. Mais oxigênio e glicose no lugar onde se decide. Sem combustível, o freio falha mesmo em quem não tem laudo.

Segundo, catecolamina. Corrida, natação ou luta soltam dopamina e noradrenalina na mesma fenda que o estimulante tenta ocupar com comprimido. Não é euforia de pódio. É sinal de “presta atenção no próximo movimento”.

Terceiro, BDNF e plasticidade. O músculo acende PGC-1α, fabrica FNDC5 e solta irisina; no hipocampo isso empurra o gene do BDNF. O BDNF maduro gruda no receptor TrkB, o espinho dendrítico engorda, a ligação “não agora / sim depois” grava melhor. Neuroplasticidade: uso vira estrutura. No rato isso inclui neurônio novo no giro denteado. No córtex da decisão, em humano, o que está mais sólido é mais sangue, mais catecolamina e um pico de BDNF depois da sessão — não um lobo novo. Por isso três vezes por semana, semanas a fio. Plasticidade não é um sábado. É repetição até o TrkB cansar de desligar.

Quarto, o treino do próprio endurance. Meta-análise em Pediatrics (2022) e outra com 44 estudos e 1.757 jovens (2023): exercício melhora o freio e a memória de trabalho. Luta e jogo — reagir ao outro — treinam melhor o “não agora”. Corrida e natação ajudam o corpo inquieto. Revisão de 2026: efeito médio, certeza ainda baixa. Remédio, quando o médico indica, não se troca por chuteira: o comprimido segura a recaptação da mesma dopamina e noradrenalina. Tela acesa a noite inteira também não se cura com ritalina. Tatame e remédio podem somar. Nenhum substitui sono e limite.

A gana que o livro separa do QI é isso: fazer o que precisa ser feito na terça, sem aplauso, para existir sábado. O herdeiro sem perspectiva e o menino da Maré falham no mesmo ponto quando só lhes vendem motivação. Motivação acaba. Endurance é a decisão que sobra.

O menino do condomínio

Quando o cérebro da criança se sente abandonado, ele não “fica triste e pensa melhor”. Ele muda de modo. O modo é sobrevivência. Ganhar tênis caro não resolve abandono afetivo: é a interação que faz a diferença.

Abandono — o pai no aeroporto, a mãe no feed, o quarto com a tela e ninguém na porta — o sistema lê como ameaça. A amígdala acende. O eixo HPA solta cortisol. A noradrenalina sobe demais. Amy Arnsten descreveu o interruptor: em dose certa, a catecolamina no pré-frontal ajuda a decidir; em dose de alarme, o pré-frontal sai do ar.

O controle executivo cai. Quem assume é o circuito antigo — amígdala, estriado, “foge, congela, busca cookie agora”. Não é metáfora de autoajuda. É hierarquia: com medo, o cérebro prioriza o que mantém o corpo vivo neste segundo. Sangue e glicose vão para o alarme. O córtex que compara hoje com amanhã fica sem combustível. A decisão piora porque o órgão da decisão foi desligado para pagar a conta do susto.

No abandono crônico isso grava. Cortisol alto por anos mexe na maturação do próprio pré-frontal e do hipocampo. Vínculo frouxo — o affluent neglect do condomínio ou a casa vazia da favela — não ensina endurance. Ensina hiperativação: o menino precisa de estímulo o tempo todo para não sentir o buraco. A tela entrega.

A publi da infância, no artigo “Isso deveria estar público?”, entrega o mesmo recado invertido: tem gente olhando, mas não é presença. É audiência. O cérebro não distingue bem holofote de colo. Distingue ameaça de base segura. Sem base, o freio some. Gravidez vira agora. TDAH vira agora. Medalha aos oito vira agora. O depois exige um pré-frontal abastecido. Abandono desvia o abastecimento.

Por isso o tatame que funciona não é só suor. É adulto na beira do tatame, toda terça, sem câmera. O sangue volta para o lugar de decidir quando o alarme desliga. Ninguém está dizendo que todos os meninos – seja favela ou condomínio – foram mentalmente abandonados. Mas negar a existência do aumento das taxas de abandono afetivo é negar a realidade de que a sociedade entrou pra Matrix das redes sociais. E isso seria mentira.

O herdeiro sem perspectiva padece do mesmo vazio com outro sofá. Ninguém apita falta na sala de jantar. Grit — persistir no longo prazo — sobe em quem fica no esporte anos a fio, não numa temporada para o Instagram. O avesso está no consultório americano: especializar aos oito, pai no banco, lesão, abandono antes dos treze. Medalha precoce ou dada sem esforço pra todo mundo é cookie com tênis caro. O tatame bom cobra derrota e cumprimenta o outro. Isso serve no Leblon e no Muquiço.

O teste do marshmallow, de Walter Mischel, era uma cadeira, um doce e um relógio invisível. A criança podia comer agora ou esperar e ganhar dois. Quem esperava, nas primeiras turmas de Stanford, foi o mesmo grupo que mais tarde ia melhor na escola e no sangue — pressão, nota, plano. O livro chama o que o relógio media de endurance mental. Não era QI. Era aguentar o agora.

A ciência depois cortou a lenda. Watts, Duncan e colegas releram a amostra: quando entra a casa da criança — dinheiro, estabilidade, se o adulto cumpre o que promete — o poder do doce sozinho encolhe. Criança que não espera às vezes não é fraca. É esperta: no mundo dela o segundo marshmallow some. Abandono ensina a comer agora. Condomínio com cookie e tela ensina a mesma pressa com outro sabor. O teste continua útil como retrato, não como sentença. O tatame é a versão com suor: o sábado só existe se a terça não come o doce.

O que o Rio pode copiar amanhã

Três vezes por semana. Uma hora, uma hora e meia. No mínimo dois meses seguidos. Modalidade em que existe adversário — judô, jiu-jitsu, boxe, futsal, vela de equipe. Um sábado marcado no fim do semestre: faixa, festival, regata. Professor que cobra presença. Escola que não tira o menino do treino para “reforço” eterno na tela. Igreja e vilas olímpicas que já têm o galpão: o que falta é rotina, não discurso.

Rafaela voltou. Vini volta no Mutuá quando pode. Jorginho construiu no campo do Rala Coco. Flávio Canto não ficou no pódio. O CEP não era o destino. Faltava quem riscasse o sábado no calendário.

Esporte salva quando tem regra, derrota e data. Sem isso, é recreio com uniforme.

Isabel de Fátima Alvim Braga

Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada. Autora de A Sociedade da Birra (2025) (Compre aqui).

Fontes

1. Braga, Isabel. A sociedade da birra. 1. ed. Rio de Janeiro, 2025.

2. Rafaela Silva / Instituto Reação / Flávio Canto — Claudia, Players’ Tribune, site do Reação.

3. Vinícius Júnior, Porto do Rosa e escolinha do Flamengo no Mutuá — BBC, ge, O São Gonçalo, AP.

4. Luta pela Paz, Maré — lutapelapaz.org; 25 anos em 2025.

5. Instituto Bola Pra Frente / Jorginho — Muquiço, bolaprafrente.org.br.

6. Fundação Gol de Letra — Caju; Sport4RIO (2016) com Reação, Bola Pra Frente e Luta pela Paz.

7. Vilas Olímpicas da Maré, Mangueira e Alemão — Diário do Rio, Voz das Comunidades, Extra, 2025–2026.

8. Projeto Grael, Niterói.

9. Ministério do Esporte / Senado, Programa Segundo Tempo, execução 2025.

10. Johnson et al., J Adolesc Health, 2005; Somers et al., 2003; Drake et al., JAH, 2024.

11. Huang et al., Pediatrics, 2022; Liang et al., 2023; BMC Public Health, 2025; umbrella 2026.

12. Nothnagle e Knoester, sport and grit, 2022; AAP, burnout no esporte infantil, 2024.

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Isabel de Fátima Alvim Braga é médica e advogada, mestre em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente e servidora pública. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada, e não tem medo do cancelamento.

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