Isabel de Fátima Alvim Braga

Não existe um banco só dos bombeiros. Não existe um banco só da PM. Existe o Rioprevidência: o fundo do Estado do Rio que paga cerca de 250 mil pessoas — servidor civil aposentado, pensionista, militar inativo. Quem apagou incêndio e quem fez ronda entra na mesma folha.
O Banco Master, de Daniel Vorcaro, foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Crise de liquidez, regras quebradas, balanço furado. O dono foi preso. Isso está no ato do BC, não em teoria de internet.
O que o fundo do Rio fez, segundo a Polícia Federal e o Ministério da Previdência, foi colocar dinheiro de aposentadoria em papel do Master. Primeiro, letras financeiras — um título que o banco emite para captar dinheiro. Essas letras não têm a proteção do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. Depois, quando o BC apertou as letras, vieram fundos com nome de novela: Arena, Revolution, Horizonte, Texas. A PF soma quase 3,7 bilhões de reais do Rioprevidência em produtos ligados ao Master. Só nas letras, o Ministério da Previdência falou em 970 milhões. Foram dezenas de aportes. O Globo descreveu média de dois por mês.
Tradução para quem não lê balanço: o dinheiro que deveria render para pagar o contracheque de quem já saiu da ativa foi usado como captação de um banco que não aguentava ficar de pé. O Tribunal de Contas do Estado apontou, no fundo Arena, rentabilidade pior que poupança e falou em desvio de finalidade. A PF descreveu encontros do então governador Cláudio Castro com Vorcaro e falou em núcleo político. Um lobista, nas mensagens, disse que o Rioprevidência tinha “um dono” para autorizar operação. A PF não nomeou o dono. Vorcaro, segundo o Estadão, chegou a mandar o fundo “escrever pouco” quando a imprensa perguntou.
Isso não é só Rio. A Folha cruzou dados da CVM e do Ministério da Previdência: pelo menos cem institutos — três estaduais e 98 municipais — puseram recurso em fundos ligados ao Master. Amapá, Amazonas, Tocantins, Cajamar, Araras. O MPF diz que a família Vorcaro já lesava regime próprio desde 2018, em escala menor. A partir de 2024 o banco passou a depender desses fundos para fazer caixa.
O FGC não é o governo comendo o poço
Quando um banco quebra do jeito do Master, duas filas se abrem.
Na primeira fila está quem tinha CDB, conta e papel coberto pelo FGC. Teto: 250 mil reais por CPF ou CNPJ. O FGC estimou pagar cerca de 40 bilhões só no Master — o maior resgate da história do fundo. Quem recebe, passa o direito de cobrar para o FGC. O fundo vira credor da massa.
Na segunda fila está quem comprou letra financeira e cota de fundo. Não tem seguro. Espera o liquidante vender o que restou: crédito, imóvel, empresa, dinheiro lá fora. A liquidante EFB já foi às Ilhas Cayman atrás de um fundo chamado Jaguar, que teria recebido 494 milhões do Master. Isso demora anos. Sobra, se sobrar, depois de trabalhador e de quem tinha garantia real.
Não existe “royalty do Master”. Royalty é petróleo. O que existe é massa liquidanda. Chamar os dois do mesmo nome só atrapalha o pedido.
O Rio não precisa de ministro
O caso sobe ao Supremo se alguém sobe. O crédito do inativo não é obrigado a ir para gabinete de ministro.
Primeiro: habilitar o crédito. A Procuradoria do Estado e o Rioprevidência protocolam no liquidante o valor cheio — letra e fundo. Sem habilitação, não entra no rateio. Isso é mesa do Banco Central e da EFB, Lei 6.024, liquidação extrajudicial.
Segundo: empurrar o liquidante. Pedir vista do quadro de credores. Cobrar o rastro de Cayman, do consignado, do laranja. O Rio é o maior RPPS na fila. Tem peso para exigir relatório, não para inventar prioridade que a lei de falências não dá.
Terceiro: Tribunal de Contas e ação de regresso. Anular aporte feito sem comitê. Cobrar dirigente, consultor e quem assinou. Esse caminho costuma devolver mais depressa do que esperar a massa sobrar depois do FGC.
Quarto: se o Estado quiser tapar o buraco do inativo com royalty de petróleo que já é do Rio, isso é orçamento estadual. Outra torneira. Não misturar com a massa do banco.
O que não resolve: tratar delação de Vorcaro como plano de governo; fazer acordo “devolve um pedaço e esquece o resto”; mandar o processo para o STF “para alguém resolver”. Cada um desses três põe o contracheque do fardado atrás de milagre.
O que o eleitor precisa guardar
O seguro do sistema financeiro salvou o CDB de quem aplicou até 250 mil. A aposentadoria de PM e bombeiro, no Rio, estava em papel sem esse seguro. A conta não some porque o banco morreu. Ela muda de fila. Fila de liquidante, de TCE, de procurador — não de holofote.
Quem veste farda e já saiu da rua não precisa de slogan contra ministro. Precisa de habilitação, de rastreio e de quem assinou o aporte respondendo com o próprio bolso.
Isabel de Fátima Alvim Braga
Médica. Foi ao Senado, disse o que pensava, foi processada — e não tem medo do cancelamento.
Fontes (números e frases citados)
1. Banco Central. FAQ da liquidação extrajudicial do Conglomerado Master, 18 nov. 2025. Lei 6.024/1974. bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/banco-master-liquidacao
2. Ministério da Previdência / Estadão, 23 jan. 2026. Rioprevidência: R$ 970 milhões em letras financeiras do Master, sem FGC.
3. G1 e CBN, 12 set. 2026. PF: quase R$ 3,7 bilhões do Rioprevidência em produtos Master; ~250 mil inativos e pensionistas; mensagens do lobista Ricardo Gordo sobre “dono”.
4. O Globo, 29 maio 2026. 41 aportes; fundos Arena, Revolution, Horizonte, Texas I; TCE-RJ e rentabilidade inferior à poupança no Arena.
5. Estadão, 30 maio 2026. Vorcaro orientando resposta do Rioprevidência à imprensa (“escrever pouco”).
6. Folha, 6 fev. 2026. Pelo menos 100 institutos de previdência em fundos ligados ao Master.
7. UOL/Daniela Lima, 4 fev. 2026. MPF: prejuízo em RPPS desde 2018; Rio e Amapá entre os maiores.
8. Agência Brasil, 18 jan. 2026. FGC: ~R$ 41 bilhões no Master; 18 fundos de pensão com ~R$ 1,86 bi fora da cobertura.
9. G1, 18 fev. 2026. FGC: ~R$ 40,6 bi no Master; teto de R$ 250 mil; sub-rogação.
10. VEJA, 11 set. 2026. Liquidante EFB no Cayman; fundo Jaguar, R$ 494 milhões.
11. G1, 14 abr. 2026. Receita: Master e Vorcaro aplicaram R$ 12,2 bi em fundos (2017–2025).