Em sua 68ª edição, o principal prêmio literário do país reconheceu autores consagrados, novos talentos e profissionais do mercado editorial. A cerimônia também destacou o papel das plataformas digitais na formação de leitores.
A literatura brasileira viveu uma noite de reconhecimento e celebração na última terça-feira, 27 de outubro, durante a entrega do 68º Prêmio Jabuti, realizada na Sala São Paulo, na capital paulista. Promovida pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a premiação consagrou escritores de diferentes gerações, valorizou a produção editorial e ampliou seu olhar para as novas formas de aproximação entre livros e leitores.
O grande vencedor foi o escritor e jornalista Ruy Castro, que conquistou o título de Livro do Ano com Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, publicado pela Companhia das Letras. A obra também venceu a categoria Biografia e Reportagem, garantindo ao autor duas das principais distinções da edição. Câmara Brasileira do Livro+1
O livro reconstrói o cotidiano do Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, período marcado pela ditadura de Getúlio Vargas e pelos impactos da Segunda Guerra Mundial. Ao relacionar grandes acontecimentos históricos às transformações vividas pela população carioca, Ruy Castro combina pesquisa documental, jornalismo e narrativa histórica.
A conquista representa mais um marco na trajetória do autor, que venceu o prêmio principal pelo segundo ano consecutivo. Além da estatueta, receberá R$ 70 mil e uma viagem para participar de uma feira internacional do livro em 2027, com despesas custeadas pela CBL.
Literatura brasileira: entre nomes consagrados e novas vozes
Entre os destaques da premiação está Eliana Alves Cruz, vencedora da categoria Romance Literário com Meridiana, também publicado pela Companhia das Letras. A escritora disputou o reconhecimento com autores como Itamar Vieira Junior, Milton Hatoum, Aline Bei e Evandro Affonso Ferreira.
Na categoria Conto, o vencedor foi Abáz, com Massaranduba, publicado pelo Senac Rio. A obra já havia recebido o Prêmio Sesc de Literatura de 2025. Em Crônica, Humberto Werneck conquistou o Jabuti com Viagem no país da crônica, enquanto Alberto Martins venceu em Poesia com Boris e Marina. O prêmio de Romance de Entretenimento ficou com Ian Fraser, autor de Cartografia para caminhos incertos. Quatro cinco um
A presença de escritores estreantes entre os premiados também chamou a atenção. Mariana Lobato Botter venceu na categoria Escritor Estreante – Romance, com Pitangas verdes, publicado pela Labrador. Já Juliana Cajives conquistou o prêmio de Escritor Estreante – Poesia com História a que ninguém deu nome, da Mormaço Editorial.
A diversidade de gêneros e trajetórias reforça a importância do Jabuti não apenas como reconhecimento de carreiras consolidadas, mas também como espaço de visibilidade para autores que começam a construir sua presença no mercado editorial.
O universo dos livros para crianças e jovens
A literatura infantil e juvenil também teve protagonismo na cerimônia. Na categoria Infantil, os vencedores foram Leo Cunha e Raquel Matsushita, autores de A letra, publicado pela Maralto. Em Juvenil, a estatueta ficou com Tathyana Viana, autora de A única da sala, da FTD.
Nas Histórias em Quadrinhos, Luckas Iohanathan venceu com Ouroboros, publicado pela Comix Zone. Os resultados mostram a amplitude da produção literária e visual brasileira, que encontra diferentes linguagens para alcançar públicos de todas as idades.
Cultura digital estreia entre os premiados
Uma das novidades de 2026 foi a criação da categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital. O vencedor foi Pedro Pacífico, criador do perfil Bookster, conhecido por compartilhar recomendações literárias, entrevistas e reflexões sobre livros nas redes sociais.
A categoria recebeu 402 indicações válidas e contou com um processo de seleção que envolveu jurados e votação popular. A iniciativa reconhece a influência dos criadores de conteúdo na descoberta de novos autores, na circulação das obras e na formação de comunidades leitoras.
A inclusão da categoria representa um movimento significativo para o setor editorial. A experiência da leitura já não se limita às livrarias, bibliotecas e espaços tradicionais de crítica literária. Ela também acontece nas plataformas digitais, onde leitores compartilham impressões, descobrem títulos e estabelecem diálogos em torno das histórias. Câmara Brasileira do Livro
Lygia Bojunga recebe homenagem especial
Outro momento importante da cerimônia foi a homenagem à escritora Lygia Bojunga, escolhida como Personalidade Literária de 2026. O reconhecimento coincidiu com os 50 anos de publicação de A Bolsa Amarela, uma das obras mais conhecidas da autora.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1932, Lygia construiu uma trajetória marcada pela valorização da imaginação e pela abordagem sensível de questões relacionadas à infância. Sua contribuição ultrapassou as fronteiras brasileiras, rendendo-lhe importantes prêmios internacionais, como o Hans Christian Andersen, em 1982, e o Astrid Lindgren Memorial Award, em 2004.
A homenagem celebrou uma carreira que contribuiu para transformar a literatura infantojuvenil em um espaço de reflexão sobre liberdade, identidade, desejos e relações humanas. Câmara Brasileira do Livro
Confira todos os vencedores do Prêmio Jabuti 2026
Além dos destaques da cerimônia, a premiação reconheceu trabalhos nas áreas de não ficção, produção editorial e incentivo à leitura. Veja a relação completa dos vencedores das 23 categorias, organizadas em quatro eixos. CNN Brasil
Literatura
| Categoria | Obra vencedora e autoria |
|---|---|
| Conto | Massaranduba — Abáz |
| Crônica | Viagem no país da crônica — Humberto Werneck |
| Estreante – Poesia | História a que ninguém deu nome — Juliana Cajives |
| Estreante – Romance | Pitangas verdes — Mariana Lobato Botter |
| Histórias em Quadrinhos | Ouroboros — Luckas Iohanathan |
| Infantil | A letra — Leo Cunha e Raquel Matsushita |
| Juvenil | A única da sala — Tathyana Viana |
| Poesia | Boris e Marina — Alberto Martins |
| Romance de Entretenimento | Cartografia para caminhos incertos — Ian Fraser |
| Romance Literário | Meridiana — Eliana Alves Cruz |
Não Ficção
| Categoria | Obra vencedora e autoria |
|---|---|
| Artes | Abdias, intérprete do Brasil — organização de Tulio Custódio |
| Biografia e Reportagem | Trincheira tropical — Ruy Castro |
| Economia Criativa | A (r)evolução das habilidades para o futuro do trabalho na era da inteligência artificial — Martha Gabriel |
| Educação | Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade — Manuel Alves de Sousa Junior |
| Negócios | Não se esqueça! — Mario Sergio Cortella |
| Saúde e Bem-Estar | A paixão pela mentira: a família e as tiranias — Paulo Schiller |
Produção Editorial
| Categoria | Obra e profissional premiado |
|---|---|
| Capa | Frans Krajcberg — Alles Blau |
| Ilustração | Guernica: a arte em busca da paz — Vinicius Sabbato |
| Projeto Gráfico | Dobra — Raul Loureiro |
| Tradução | O cavaleiro de bronze e outros contos e versos — Rubens Figueiredo |
Inovação
| Categoria | Vencedor |
|---|---|
| Incentivo à Leitura – Projeto | Cartovivências nas periferias da cidade — Ricardo Barbosa da Silva |
| Livro Brasileiro Publicado no Exterior | Os substitutos — Companhia das Letras e Métailié |
| Incentivo à Leitura – Cultura Digital | Bookster — Pedro Pacífico |
Um reconhecimento que vai além dos escritores
A edição de 2026 recebeu 4.675 inscrições de obras e projetos nas 22 categorias tradicionais, além das 402 indicações válidas para a nova categoria de Cultura Digital. Cada vencedor das 23 categorias recebeu R$ 5 mil e a estatueta do Jabuti. Câmara Brasileira do Livro
Mais do que celebrar livros, a premiação evidencia a participação de uma extensa cadeia de profissionais que tornam possível a publicação de uma obra. Escritores, editores, tradutores, ilustradores, designers e profissionais envolvidos na produção editorial contribuem, em diferentes etapas, para que os textos encontrem seus leitores.
Ao mesmo tempo, o reconhecimento de projetos de incentivo à leitura e iniciativas digitais amplia o debate sobre o acesso ao livro no Brasil.
Entre a tradição de autores como Ruy Castro e Lygia Bojunga, o surgimento de novas vozes e a presença crescente das comunidades digitais, o Jabuti 2026 evidencia um mercado literário em transformação.
Para além das estatuetas, fica o convite para que os leitores conheçam as obras premiadas, descubram novos autores e ampliem seus repertórios. Afinal, a permanência da literatura depende tanto de quem escreve quanto de quem lê, compartilha e mantém as histórias em circulação.
