O Brasil chega ao fim de 2026 diante de um problema que não pode mais ser escondido atrás de discursos sobre responsabilidade social, crescimento econômico ou promessas de equilíbrio futuro. A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em setembro, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Em dezembro de 2022, antes do início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse indicador estava em 71,7% do PIB.
A diferença representa um aumento de 11,2 pontos percentuais em relação ao tamanho da economia. É um avanço expressivo do endividamento em um país que continua enfrentando juros elevados, despesas públicas crescentes, dificuldades para ampliar investimentos e uma disputa permanente sobre quem deve financiar a máquina estatal.
O problema não é apenas o tamanho da dívida. É a ausência de uma resposta suficientemente clara sobre como interromper sua trajetória de crescimento sem transferir o custo para a população.
Na semana em que o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, Lula convocou ministros, ex-ministros da Fazenda e economistas para discutir o futuro da política fiscal. O encontro aconteceu em 5 de novembro, no Palácio da Alvorada, mas terminou sem anúncio de medidas concretas.
A reunião reuniu nomes que participaram ou influenciaram diferentes momentos da política econômica brasileira. Estavam presentes o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o vice-presidente Geraldo Alckmin, além dos ex-ministros Fernando Haddad e Guido Mantega. Também participaram economistas e integrantes do governo.
O encontro, porém, não produziu um plano fiscal fechado, com metas detalhadas, cronograma de execução e identificação das despesas que serão efetivamente reduzidas.
O ministro Dario Durigan informou que as propostas seriam organizadas com Bruno Moretti e apresentadas a Lula depois do retorno das viagens internacionais do presidente, previsto para meados de novembro.
O país, portanto, continua esperando respostas para uma questão que deveria estar no centro do planejamento econômico: de onde virá o dinheiro para sustentar os compromissos do governo sem aumentar ainda mais o endividamento?
R$ 11,1 TRILHÕES: a conta cresce, mas a solução continua no papel
O número precisa ser compreendido em sua dimensão. R$ 11,1 trilhões não são uma previsão distante, nem uma estimativa de campanha. Trata-se do estoque da dívida bruta do governo geral registrado em setembro de 2026.
A dívida pública não é uma conta que vence integralmente de uma só vez. Ela reúne obrigações acumuladas ao longo do tempo, financiadas por emissões de títulos e outras operações. O problema aparece quando o governo precisa refinanciar vencimentos, pagar juros e continuar emitindo dívida para financiar despesas sem conseguir produzir resultados fiscais suficientes.
Quanto maior a dívida e mais elevado o custo de financiamento, maior pode ser a pressão sobre o Orçamento. Uma parcela crescente dos recursos públicos precisa ser destinada ao serviço da dívida, reduzindo o espaço disponível para investimentos e outras políticas públicas.
O efeito pode se transformar em um ciclo difícil de interromper: juros elevados aumentam o custo da dívida; o custo maior pressiona as contas públicas; a percepção de risco pode elevar os juros exigidos pelos investidores; e o governo passa a enfrentar condições ainda mais caras para financiar suas obrigações.
Não é uma hipótese que possa ser descartada com um pronunciamento presidencial.
A própria Instituição Fiscal Independente, órgão vinculado ao Senado Federal, apresentou um diagnóstico preocupante. Em seu relatório de outubro, estimou que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB para estabilizar a relação entre dívida e PIB, considerando as premissas utilizadas na projeção.
O superávit primário ocorre quando o governo arrecada mais do que gasta, antes do pagamento dos juros da dívida. Portanto, não basta anunciar que a arrecadação está crescendo ou que determinados programas serão mantidos. É preciso que o conjunto das receitas e despesas produza um resultado compatível com a estabilização do endividamento.
O desafio é considerável: o governo precisa encontrar espaço para reduzir o desequilíbrio fiscal em uma estrutura orçamentária marcada por despesas obrigatórias, benefícios, vinculações constitucionais e compromissos políticos.
PROMESSAS DE CAMPANHA: QUEM VAI PAGAR A CONTA?
Um dos pontos mais delicados da discussão está no custo das promessas eleitorais.
Relatório da IFI divulgado em 29 de outubro estimou que parte das medidas anunciadas durante a campanha de Lula pode representar impacto fiscal de aproximadamente R$ 40 bilhões. O cálculo considera alterações relacionadas ao Bolsa Família, perda de arrecadação associada às apostas de quota fixa e medidas destinadas aos microempreendedores individuais.
A estimativa não inclui outros compromissos, como a ampliação do Pé-de-Meia para estudantes universitários e a gratuidade do transporte coletivo nos fins de semana.
A conta, portanto, pode ser maior caso todas as propostas sejam implementadas.
O governo precisa responder a uma pergunta básica: se havia tantos compromissos financeiros sendo apresentados ao eleitor, por que o debate sobre a fonte de financiamento dessas medidas ganhou tanta força somente depois da eleição?
Não é suficiente anunciar benefícios, ampliar programas ou prometer novas despesas. Toda política pública precisa ter uma fonte de financiamento sustentável. Sem isso, a promessa pode se transformar em pressão sobre o endividamento, aumento de tributos, redução de investimentos ou cortes em outras áreas.
A IFI também projetou déficit primário de 0,5% do PIB para 2026 e apontou a possibilidade de déficit efetivo de até 1% do PIB em 2027, considerando os riscos e divergências de estimativas analisados no relatório.
O mesmo estudo indicou que, em determinadas premissas, a probabilidade de a dívida bruta ultrapassar 90% do PIB até 2030 poderia chegar a 81,6%.
Esse é um dos cenários mais preocupantes para o país. Não significa que a dívida necessariamente atingirá esse patamar, mas mostra que, sem mudanças consistentes, o risco de uma deterioração ainda maior não pode ser tratado como alarmismo.
O AJUSTE FISCAL QUE PODE CHEGAR DEPOIS DA ELEIÇÃO
A reunião de 5 de novembro também expôs uma contradição política importante.
Durante a campanha, o eleitor recebeu compromissos sobre programas sociais, benefícios e expansão de políticas públicas. Agora, com a dívida em crescimento e a pressão por resultados fiscais, o governo discute alterações no arcabouço, revisão de despesas e mudanças na organização dos recursos públicos.
A questão não é se o Estado precisa administrar melhor o dinheiro. Essa obrigação existe independentemente de quem ocupa a Presidência. O problema é a falta de clareza sobre quais compromissos serão mantidos, quais serão revistos e quais grupos poderão sentir os efeitos do ajuste.
A equipe econômica avalia mudanças que podem tornar mais duradouro o efeito dos contingenciamentos sobre o limite de despesas dos anos seguintes. A proposta, revelada pela Folha de S.Paulo, também envolve a possibilidade de ampliar mecanismos de contenção de determinadas despesas obrigatórias.
Na prática, uma alteração dessa natureza poderia reduzir o espaço orçamentário disponível nos exercícios futuros. Se aprovada, exigiria explicações detalhadas sobre quais despesas seriam atingidas e quais serviços poderiam sofrer consequências.
Não se trata de uma decisão já tomada. É uma alternativa em estudo, mas seu conteúdo mostra que a discussão fiscal pode produzir mudanças estruturais na forma como o governo administra o Orçamento.
SAÚDE E EDUCAÇÃO PODEM ENTRAR NA DISPUTA POR RECURSOS
Outra possibilidade em análise envolve os pisos constitucionais de Saúde e Educação.
A proposta divulgada pela imprensa prevê maior flexibilidade para a utilização de parte dos recursos destinados a essas áreas, inclusive com a possibilidade de direcionamento de uma parcela do piso da Educação para a Saúde.
A justificativa apresentada por defensores da discussão envolve mudanças demográficas e o aumento da demanda por atendimento médico em uma população que envelhece.
Mas existe um risco que precisa ser enfrentado: em um Orçamento pressionado, a flexibilização pode se transformar em instrumento para administrar a escassez de recursos sem resolver a origem do desequilíbrio.
Se a União passa a movimentar recursos entre áreas que possuem pisos constitucionais, será necessário demonstrar que a mudança não vai reduzir a qualidade da educação, comprometer investimentos em escolas ou diminuir a capacidade de atendimento do sistema de saúde.
O debate não pode ser tratado como simples ajuste contábil. Saúde e Educação são áreas que afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros. Qualquer alteração precisa ser acompanhada de estimativas de impacto, garantias de financiamento e transparência sobre a distribuição dos recursos.
SUPERSALÁRIOS, BENEFÍCIOS E PRIVILÉGIOS: O GOVERNO VAI ENFRENTAR OS INTERESSES QUE PESAM SOBRE O ESTADO?
Entre as alternativas discutidas estão o combate aos supersalários na administração pública, a revisão de benefícios e incentivos tributários e mudanças em determinadas despesas.
Esse é um dos pontos que exigem maior clareza política.
O Brasil não pode discutir ajuste fiscal apenas a partir de programas destinados à população de baixa renda, aposentadorias, serviços públicos e investimentos sociais. Também precisa enfrentar distorções, privilégios e despesas que beneficiam grupos com maior poder de influência dentro da estrutura estatal.
Combater pagamentos acima do teto constitucional, revisar benefícios tributários sem justificativa econômica demonstrável e avaliar a eficiência dos gastos públicos são medidas que precisam ser discutidas com critérios objetivos.
Mas o discurso não pode substituir a execução. Se o governo pretende rever privilégios, precisa apresentar números, identificar os beneficiários das renúncias fiscais, demonstrar quais despesas serão reduzidas e explicar por que determinadas estruturas continuam consumindo recursos públicos.
O ajuste não pode ser seletivo: cobrar sacrifícios de quem depende dos serviços públicos enquanto preserva despesas sem justificativa consistente seria reproduzir uma das distorções mais antigas da administração brasileira.
O PIOR CENÁRIO: JUROS ALTOS, DÍVIDA MAIOR E MENOS DINHEIRO PARA SERVIÇOS PÚBLICOS
Se o governo não conseguir produzir um ajuste fiscal consistente, o país poderá enfrentar uma combinação de problemas.
O primeiro risco é a continuidade do crescimento da dívida. Com despesas obrigatórias pressionando o Orçamento e resultados primários insuficientes, o governo pode precisar recorrer a mais endividamento para financiar suas obrigações.
O segundo é a manutenção de juros elevados por mais tempo. A Selic não é definida diretamente pelo presidente, mas a política fiscal influencia as condições econômicas e as expectativas de inflação. Uma trajetória de dívida considerada insustentável pode dificultar a redução dos juros, encarecendo o crédito para famílias e empresas.
O terceiro risco é a perda de espaço para investimentos públicos. Quanto mais recursos são consumidos pelo financiamento da dívida e pelas despesas obrigatórias, menor tende a ser a margem para ampliar infraestrutura, saneamento, hospitais, escolas e projetos capazes de aumentar a produtividade.
O quarto é a possibilidade de um ajuste mais abrupto no futuro. Quando governos adiam decisões difíceis, o desequilíbrio pode crescer a ponto de exigir medidas mais duras, em prazo menor e sob condições econômicas piores. Nesse cenário, cortes emergenciais, aumento de tributos ou bloqueios orçamentários mais intensos poderiam atingir a atividade econômica e a prestação de serviços.
O quinto risco é a deterioração da confiança. Se investidores, empresas e consumidores passam a duvidar da capacidade do governo de estabilizar a dívida, podem adiar investimentos, exigir remuneração maior para financiar o Estado e reduzir a disposição para assumir compromissos de longo prazo.
Nenhum desses resultados é inevitável. Mas todos são riscos concretos que precisam entrar na discussão pública quando o endividamento cresce e o governo ainda não apresenta um plano completo de enfrentamento.
LULA PROMETE QUE O POBRE NÃO PAGARÁ A CONTA. MAS QUEM PAGARÁ?
Em 6 de novembro, Lula voltou a defender publicamente a responsabilidade fiscal e afirmou que os mais pobres não pagarão a conta de um eventual ajuste.
A declaração, entretanto, não responde ao principal problema: como o governo pretende reduzir o desequilíbrio fiscal sem transferir custos para a sociedade?
Se não houver redução de despesas ineficientes, revisão de privilégios, controle de benefícios mal direcionados e aumento sustentável da capacidade de arrecadação, a conta continuará existindo.
Ela poderá aparecer na forma de juros mais altos, impostos, crédito mais caro, serviços públicos pressionados, menor investimento ou crescimento econômico mais fraco.
O custo de uma dívida elevada não desaparece porque um governo afirma que não pretende repassá-lo aos mais pobres. Ele se manifesta de diferentes formas na economia e pode atingir justamente quem tem menos condições de se proteger.
A responsabilidade fiscal precisa ser demonstrada por decisões, resultados e transparência, não apenas por declarações.
O PRONUNCIAMENTO NÃO SUBSTITUI UM PLANO ECONÔMICO
Lula deverá realizar um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão neste domingo, 8 de novembro. As informações divulgadas até agora indicam que a fala deverá reforçar o compromisso com a responsabilidade fiscal e a manutenção das políticas sociais, sem apresentar um pacote detalhado de ajuste.
O mercado financeiro espera sinais sobre como o governo pretende financiar as promessas eleitorais e estabilizar a dívida pública. A equipe econômica, por sua vez, deverá apresentar as propostas ao presidente após o retorno de suas viagens internacionais, previsto para meados de novembro.
Mas o Brasil não precisa de mais uma declaração genérica sobre compromisso com as contas públicas. Precisa de um plano que possa ser examinado pela sociedade.
Esse plano deveria apresentar metas verificáveis, estimativas de economia, despesas que serão revistas, cronograma, impacto sobre os serviços públicos e medidas para impedir que o endividamento continue avançando.
Também precisa deixar claro o que acontecerá com os compromissos assumidos durante a campanha. O eleitor tem o direito de saber quais promessas serão executadas, quais serão adiadas e quais não terão condições financeiras de sair do papel.
A questão central já não é se o governo deseja tranquilizar o mercado. É se terá disposição política para enfrentar os problemas estruturais que pressionam as contas públicas, inclusive aqueles que envolvem interesses de sua própria base de sustentação.
Com uma dívida de R$ 11,1 trilhões, não há espaço para tratar o problema como uma dificuldade passageira ou uma simples disputa de narrativa entre governo e mercado.
O Brasil precisa saber quanto custa manter a atual estrutura do Estado, quanto custam as promessas políticas e quais despesas serão efetivamente enfrentadas.
A dívida é pública. A conta também. E o cidadão não pode continuar sendo informado apenas de que o governo está estudando soluções enquanto o endividamento avança.
